Sobre se sentir (In) Útil na quarentena

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Por Maria Augusta Tellechea Alves

Esse texto vai ser mais um desabafo pessoal de uma pessoa que não aguenta mais o isolamento social e que reconhece o seu privilégio de poder ficar em casa enquanto muitos tem que trabalhar para que isso seja possível, que tem consciência da gravidade da situação, que estamos vivendo uma pandemia global e que muitos estão em uma situação muito pior. #fiqueemcasa #usemáscara

     Tenho percebido que o “se fazer útil” durante essa fase de isolamento social tem sido um assunto muito frequente entre as pessoas. O discurso de que podemos utilizar esse tempo que nos foi dado forçadamente para fazer coisas que sempre quisemos fazer mas antes não tínhamos tempo é lindo, porém utópico. Quarentena não é férias, embora muitos possam ficar em casa e curtir esse momento, outros vivem em desespero de se trancar em casa com a família, os casos de violência doméstica subiram, pessoas perderam seus empregos e as notícias com o número de mortos são assustadoras, quem sofre de ansiedade sabe o quão difícil é manter a saúde mental nesses dias. Acho incrível que algumas pessoas consigam manter uma rotina saudável nesse momento, mas gostaria de ver menos julgamentos e mais apoio aos que não conseguem, e acabam surtando mesmo, nem que seja por um momento. A minha situação não está tão diferente, percebi que ficar em casa é a parte fácil de tudo isso, mas que não poder ver as pessoas que eu gosto e sinto falta é extremamente difícil, e fora o sentimento de se sentir só, ainda tem outros.

     Eu sou uma pessoa que odeio casa suja, mas ao mesmo tempo morro de preguiça de limpar, na época em que eu estava escrevendo meu TCC, no último semestre da faculdade, a minha casa era um lixo só, eu só tinha tempo de fazer as coisas mais básicas, como lavar louça e varrer, e eu vivia reclamando disso. Agora, por outro lado, eu tenho tempo de sobra para limpar e deixar tudo organizado, e por duas semanas durante a quarentena, foi o que eu fiz: acordava, cuidava do meu gato, trocava areia, dava comida e deixava tudo limpinho, depois limpava cada cantinho da casa, consegui ler um livro, maratonar 2 séries, ainda fazia um treino em casa que uma amiga super fitness me indicou, tomava banho, secava meu cabelo e dormia plena. Mas agora isso acabou, estou vivendo na fase dos picos, a ansiedade bateu forte e eu fico calculando quantos meses ainda teremos que viver dessa forma, quantos dias, quantas horas? Então tem dias que eu acordo e ainda faço todas as tarefas do projeto de rotina que criei naquelas 2 semanas, mas em outros, eu não consigo nem levantar da cama, não tenho vontade nem de procurar um seriado para assistir, e isso é normal. Eu li algumas coisas que me ajudaram a pensar nisso e me ajudaram a perceber que tudo bem não ser útil todos os dias, tudo bem pegar um dia para fazer absolutamente nada, tudo bem não se cobrar tanto e mais importante ainda, não cobrar tanto dos outros. 

    Aquele ditado que diz que cabeça vazia é oficina do diabo é muito verdade, nesses dias em que me sinto inútil são os dias que quero pensar sobre o que está errado na minha vida, e me culpar, e culpar os outros, e me cobrar, e cobrar as pessoas próximas a mim pelas atitudes delas. Mas esses pensamentos só tem o poder de me deixar ainda mais ansiosa, porque nós podemos sim fazer muito por nós e tentar direcionar nossa vida para o que nos parece adequado, mas os fatores externos não levam nossa vontade em consideração. Então, colocar nossa força e pensamentos nas coisas que não temos poder de mudar só vão atrapalhar esse momento e prejudicar nossa saúde mental, que precisa estar forte para quando tudo isso acabar e o mundo voltar a ser o que era, porque eu acredito sim que tudo isso vai passar, as minhas amigas vão se formar, o TCC sobre a Arya de Game of Thrones vai acontecer, amiga, a órion vai voltar a abrir, pessoal, e nós ainda vamos lembrar disso tudo e poder dizer que o ano de 2020 tinha tudo pra ser O ano, mas ele foi cancelado e teve o feriado de carnaval praticamente emendado com o natal.

Maria Augusta é graduada em Letras – Línguas Adicionais: Inglês, Espanhol e suas respectivas literaturas pela Universidade Federal do Pampa, é integrante do Junipampa/LAB desde 2017, é apaixonada por gatos, Harry Potter e pela sua cidade natal, Uruguaiana.

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