Sobre como é ser agredida fisicamente por um homem que te ama

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Há alguns dias, ele me bateu. Gosto de usar “bateu”, porque espancar é muito forte. Mas como foi algo forte, vou refazer a sentença: há alguns dias, ele me espancou. Dois socos e um chute na cara. Eu não sabia que tinha sido tanto, porque estava totalmente perdida. O álcool e a confusão mental foi uma espécie de entorpecente para a dor. Estávamos num bar movimentado da cidade, meus amigos, ou melhor, seus amigos e meus conhecidos estavam no local. Havia uma garota sozinha, meio excluída e como sou perita em me sentir abandonada (e sei como o troço é desconfortável) resolvi chamá-la para ir comigo até o banheiro. Ela pediu meu batom emprestado, compramos uma bebida, ficamos conversando e dando risada. Quando ele nos viu ficou bravo, desconfiou de mim por ambas estarmos usando o mesmo batom, e olha que eu nem fico com mulher… E nunca o trairia.

Eu o abracei, disse para deixar de bobeira, o beijei, mas ele manteve uma distância considerável de mim. Fiquei triste, sempre ficava triste quando saíamos e ele arranjava um motivo para brigar comigo: eu olhar para alguém, eu ser simpática, eu conversar, eu o deixar por um tempo para conversar com minha amiga. Eu me acostumei, hoje vejo que o amei mais do que amei a mim mesma, porque eu estava disposta a ceder muita coisa, muitas das minhas ideologias… E tudo por alguém que não me amava verdadeiramente… Tudo por alguém que me espancou por ciúmes e paranoia.

Eu sempre disse que ele precisava ir a um psicólogo, ele nunca me escutou, disse que estava bem. Quando eu decidi começar a me tratar, meio que fiz por nós dois. Eu nunca tinha planejado uma vida com alguém antes, mas dessa vez era diferente e eu não queria errar com alguém que me amava tanto (ou dizia me amar tanto). Hoje não vejo mais o ciúmes como demonstração alguma de amor. Uma vez ele me fez prometer que eu sempre contaria tudo da minha vida a ele, eu não sabia que isso incluía uma conversa casual com um dos homens que dividem a casa comigo. Quando contei que conversei com um deles sobre filmes, ele ficou irritado, disse que eu havia prometido contar tudo, que o cara em questão só queria “me comer”. Na verdade, era isso que todos os outros homens queriam comigo, exceto ele. Infelizmente, naquela época, eu não vi o nível de objeto ao qual ele estava me reduzindo quando dizia que alguém só teria uma conversa comigo se fosse com fins sexuais. Como se eu não tivesse nada a oferecer, como se eu não fosse inteligente, simpática, ou legal. Todo dia era uma briga diferente e a culpa era nossa, admitíamos (já que ninguém briga sozinho), mas hoje já não tenho tanta certeza que tive alguma culpa nisso.

Ele se sentia sozinho, ele se sentia muito sozinho. E eu o amava tanto que não queria que ele se sentisse assim nunca. No meu tempo livre da universidade e dos deveres nem sempre tão interessantes, eu ficava com ele. Queria o fazer feliz. Minha amiga de infância me perguntou uma vez pelo Facebook o que estava acontecendo: ela sempre esteve comigo e sempre soube que eu precisava de um tempo para mim mesma, para meus livros, para minhas séries, para minhas reflexões sem sentido sobre o mundo. Concordei com ela, mas como eu poderia deixar se sentir sozinho alguém que me ajudava tanto? Apesar das brigas, do ciúmes e, de uma vez, ele ter tentado arrombar minha porta, alegando que eu estava o traindo com alguém, quando apenas estava dormindo, ele era um cara legal. Ele é um cara legal em vários aspectos. Ele errou comigo, mas ele também acertou em infinitas coisas: tenho depressão e ele esteve comigo em minhas crises, não consigo me alimentar direito e ele me obrigava a comer (mesmo que eu dissesse mil vezes que não tinha fome), ele compartilhou momentos incríveis comigo, ele me fez chorar de felicidade, me fez chorar de amor, me fez acordar e me sentir a mulher mais incrível do mundo e depois jogou tudo isso fora por insegurança, por medo. Como ele já havia sido traído antes, vivia com medo que ocorresse de novo. Que coincidência! Pois a traída dessa história fui eu.

Eu me abri completamente, quer dizer, completamente não, mas eu estava me abrindo… Aos poucos… Ainda lembro quando nos conhecemos um ano atrás, de imediato houve uma conexão muito forte e eu não conseguiria colocar isso em palavras. Nos aproximamos e eu dividi meu mundinho com ele: contei minhas histórias, meus traumas, meus medos, meus sonhos, dividi a cama, dividi a comida, o abracei nas diversas vezes que o mesmo chorava, estive no hospital quando ele não esteve bem e, mesmo tendo aula todas as manhãs cedinho, eu era incapaz de deixar ele no hospital a madrugada toda sozinho, mesmo não conseguindo dormir naquela cadeira horrível. Nunca, nunca ele faria o mesmo, hoje eu sei. Ele nunca aguentaria a metade do que aguentei e não o culpo, a estúpida fui eu por me colocar em segundo plano.

No dia seguinte à agressão eu estava devastada. Graças a um inFELIZ, minha história foi divulgada no Facebook para meio mundo saber, antes mesmo de cair a ficha para mim, na verdade, talvez, ainda não tenha caído. Eu olhei aquela postagem imbecil com pessoas imbecis dizendo que eu gostava de apanhar, que com certeza ele tinha feito isso comigo várias vezes, que eu não tinha amor próprio, que eu era uma PUTA POR TER APANHADO. Vocês todos que me julgaram não sabem a metade do que se passou dentro de mim e o que se passa agora. Você não sabe sequer o lado sombrio de ser mulher.

E eu, que acreditava que sororidade era apenas uma palavra bonitinha a ser usada, percebi que várias garotas estavam alí, tentando me ajudar virtualmente: obrigada a todas vocês. Uma advogada que mora em João Pessoa (creio), passou a noite conversando comigo e se comunicou com uma advogada daqui para eu ter o suporte necessário. Minha amiga e companheira de casa passou o tempo todo me mandando mensagens para saber como eu estava e foi comigo até a delegacia. Vários amigos do meu ex namorado se prontificaram em testemunhar a agressão: eles ficaram do meu lado e foi tão bom saber que nenhum deles quis saber o motivo da agressão. Só entenderam que foi agressão e se recusaram a ficar do lado do agressor.

Sabe, sou feminista, sempre discuti questões como essa. Mas acredite, quando há sentimentos envolvidos, tudo muda. Eu realmente nunca me senti tão traída, eu queria o matar por ter acabado para sempre com nosso amor. Depois do que ele fez não tinha mais desculpas, não tinha mais volta, não tinha como o defender e tudo que eu queria era seu abraço…

Não é atoa que aceitei o ver: ele veio pedindo mil desculpas e dizendo que nunca iria se perdoar por me perder, que eu sou a pessoa mais incrível que ele conheceu, que ele iria melhorar… Quando o encontrei pessoalmente contei que havia o denunciado, ele aceitou, quis mostrar o quanto estava arrependido, chorou horrores e eu me senti tão tocada: não poderia perder nosso amor. Fiquei com ele. No dia seguinte, bêbada, dormi com ele. Acordei e pedi um abraço. A coisa preferida no mundo para mim era que ele me abraçasse até eu ficar sem ar, totalmente coberta por seus braços, enquanto alguma música calma tocava de fundo. Ele fez isso, eu não senti nada. Não senti nada e fui para minha casa com a certeza de que o havia perdoado, mas que nós dois nunca mais existiria. Por mais que ele se esforçasse eu nunca confiaria nele novamente. Espero sinceramente que ele fique bem. Eu estou bem, ou ao menos penso que estou. Já passei por tanta coisa que me sinto calejada. Mas ao menos, me sinto livre novamente. Terminou da pior forma possível, mas creio que eu esteja feliz por ter terminado. Amor pode ser muitas coisas, mas não foi o que eu vivi, não de modo recíproco.

Segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Públicos e Privados (FPA,Sesc, 2010), cinco mulheres são espancadas a cada dois minutos no Brasil e 80% dessa agressão toda é exercida por marido, namorado ou ex da vítima. Grande parte dos homens, de fato, enxergam as mulheres como propriedade para crer que podem violar desse modo um ser humano. É desumano, e fico profundamente machucada por ter passado por isso e por saber que agora mesmo uma outra mulher, ou melhor, umas outras mulheres por aí estão tendo seu físico, emocional e psicológico destruídos.

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