O preço da felicidade

image1Por Leandro de Araújo

 

Já estava dentro do ônibus que pego para ir para casa depois do dia de trabalho, quando uma cena prendeu minha atenção e grudou em minha memória com tamanha intensidade, que por alguns dias não conseguia parar de pensar no que vi.

A parte inferior do “Viaduto da Conceição”, no Centro de Porto Alegre, é um grande terminal de ônibus que reúne diariamente milhares de pessoas que vão da capital gaúcha às cidades da região metropolitana e vice-versa. Um grande painel de tipos humanos que, ao final da tarde, aguardam em longas filas o transporte que os levará de volta para suas casas após a jornada de trabalho. Existem ali também algumas bancas que vendem hortifrútis, uma banca de revistas, algumas carrocinhas de cachorro-quente, vários ambulantes, pedintes e um banheiro público, muito questionável no que diz respeito tanto à segurança quanto à higiene. Ao lado deste banheiro, um casal de moradores de rua cuja atitude me fez cair numa reflexão profunda sobre aquilo que realmente nos faz feliz.

Um homem e uma mulher, presumidamente moradores de rua, ela carregando alguns sacos com o que pareciam ser roupas. Ele arrastando um colchão de solteiro velho, sem capa e uma mochila. Eram 18 horas, o sol já ia baixo, mas ainda brilhava forte na Rua Voluntários da Pátria, que corta o viaduto por baixo. O homem então põe o colchão no chão, próximo à parede do banheiro público onde não batia sol, ajuda a mulher a deitar, tira algo de um saco e coloca sob sua cabeça como se fosse um travesseiro, abre sua mochila e retira desta algo que se parecia com uma manta ou cobertor velho e cobre a mulher. Ele senta próximo aos pés dela e, sorrindo, estende suas mãos e mexe em seus cabelos. Ela sorri de volta. Conversam um pouco, animadamente, até que ele levanta, sai andando e some atrás do prédio do banheiro. Um minuto depois volta com um pedaço de pão e um pote de iogurte que me pareceu já chegar aberto e com menos da metade do seu conteúdo, como se tivesse sido descartado por alguém antes de ser achado por nosso personagem. Senta novamente aos pés de sua companheira, parte o pão em dois e divide com ela, que senta no colchão para lanchar. O iogurte era como se fosse o bônus, pois ele entregou para ela, que sorriu e bebeu o conteúdo do pote. Em momento algum deixaram de conversar animadamente e sorrir. Às 18 horas e 15 minutos, quando o ônibus começou a deixar o ponto de embarque, ela já havia deitado novamente, e ele continuava a conversar e sorrir, às vezes jogando a cabeça para trás, como se estivesse curtindo muito, tanto o papo como a companhia. Então meu ônibus partiu.

Na medida em que o ônibus se afastava, as perguntas começaram a aparecer: “O que realmente me faz feliz?” “Quanto esforço, tempo e dinheiro dispenso para poder dar um sorriso?” “Quais são os fatos que, diariamente, me deixam chateado ou irritado? “ “Acostumei-me tanto a reclamar do que não tenho, que acabei esquecendo tudo aquilo de bom que já conquistei?”

Somos a sociedade do TER. Queremos o telefone mais poderoso, o videogame mais moderno, a TV mais fina, o tênis mais caro. São as coisas que nos fazem felizes e, sem as quais, afundamos em nossa própria frustração diante do simples, do bonito e do verdadeiramente humano.

O quadro foi tão surreal… Mostrava ao mesmo tempo uma pobreza extrema e uma alegria surpreendentemente boa! Demorei um tempo para poder formular qualquer raciocínio ou opinião. Habituei-me a condicionar a alegria a objetos, conquistas, troféus, que talvez já não imaginasse mais que alguém pudesse demonstrar tamanha felicidade com “coisas pequenas”.

Coisas pequenas… Esse conceito se mostrou completamente idiota quando parei para pensar um pouco mais sobre a cena. A gentileza com que o homem postou a cama, a alegria e a gratidão que ela demonstrou em aceitar este carinho. A generosidade. A capacidade de compartilhar. A humildade de se mostrar feliz em receber algo simples, mas verdadeiramente de coração. A doação. A cumplicidade. O respeito. O amor.

Estava tudo ali, saltando aos meus olhos. Nada disto custa dinheiro. Para se conquistar estes valores não é necessário qualquer tipo de capital ou diploma. Basta apenas ser humano.

 

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