O medo de crescer

now i am goner

Por Mariléia Correa Camargo Rocha

Tinha uma pedra, que a fez de travesseiro. Ali com sede e fome, seus olhos se fechavam, pois o cansaço o consumia. Todos contemplavam aquela cena, uns julgavam, outros se comoviam, mas ninguém ajudava. Parecia um bom samaritano na travessia de Jerusalém para Jericó, onde um bando de ladrões o atacaram e o saquearam e deixando–o quase morto fugiram. Por coincidência, passaram naquele lugar, algumas pessoas, porém apenas um homem, estrangeiro, tivera compaixão de sua vida.

Não muito diferente aconteceu com esse menino, pois após adormecer foi acordado por um comerciante. Quando ele abriu os olhos, se assustou e disse: – “Senhor, não sou marginal, nem tampouco bandido’’, pensou ele. “Sou filho de traficante morto”, mas ele não soletrou em voz alta, e explicou: “Sou ainda pequeno e bom de coração, à procura de uma oportunidade para não entrar no mundo de terror”, então o senhor lhe perguntou: “Diga-me qual sua graça?”. Então levantou os olhos e disse: “Senhor, meu nome é Juca”. E o homem disse: “Venha comigo, vamos descansar lá dentro”. Ele logo se levantou e foi, subindo os degraus para entrar na casa deste homem. Juca perguntou: “E o senhor como se chama?” O misterioso que se importou com ele disse: “Me chamo Clementino”. Ao entrar, Clementino pediu a sua esposa que providenciasse roupas limpas, e o levasse para o banho, e logo preparou um prato farto de comida e muita água, pois Juca estava faminto e com muita sede. Após comer, apresentaram-lhe uma cama cheirosa e quentinha, ali adormeceu. 

Ao amanhecer, sr. Clementino perguntou ao menino de onde ele vinha, quem era ele, e quem era seus pais, o que ele fazia na rua aquela hora, e o porquê. Juca se embaralhou de tanta pergunta, e logo respondeu: “sou órfão de pai, e com medo”, disse, “e de mãe, também”. Então, o senhor Clementino, com dó, propôs ao menino que ele ficasse ali, pois poderia ajudar no trabalho e questionou se ele já havia ido à escola. Juca suspirou e balançou a cabeça como se estivesse dizendo que não, então Clementino disse: “Guri! Tu precisa estudar, para ser alguém na vida”. Mal sabia que tudo o que ele queria era estar longe da escola, pois tinha vergonha de não saber ler e tampouco escrever. Então, Clementino lhe fez uma proposta: “Se tu fores pra escola, tirar notas boas, cuidaremos de você, seremos uma família”. Juca em seu coração se animou, pois só Madalena tinha este carinho com ele e mais ninguém, e era a chance dele não ter que tocar aqueles negócios de sua família, ele tinha um pensamento de ser livre sem ter que estar fugindo da polícia ou dos traficantes, que duas ou três vezes, chegavam e atiravam, batiam em todos que ali estavam. Vida atormentada, ele não queria voltar para lá.

No dia seguinte, saíram para providenciar documentos, pois Juca nem isso possuía. Estava se aproximando a hora do almoço, e Clementino disse a Juca: “vamos voltar para casa para almoçar e, à tarde, sairá em busca de escola”. Assim fizeram, bateram em muitas escolas e como já estava no meio do ano, não cediam vagas para Juca, até que quando estavam desistindo, arrumaram uma vaga. Ele começaria na próxima segunda-feira.

Então, chegou o dia de levantar cedo e se dirigir para escola, e em seu pensamento dizia: “Pode ser que a escola não seja tão chata”. Sr. Clementino lhe acompanhou até a porta da sala de aula, quando entrou viu um monte de crianças de sua idade, todos curiosos para saber quem ele era. Em seguida se apresentou a ele, a professora Judite solicitou que ele se sentasse. Propôs uma atividade em sala de aula, seriam duplas, todos se ajeitaram, mas ele, tadinho, ficou sem dupla, se sentiu excluído, até que alguém bate na porta. Era Catarina, pois estava voltando de viagem, a professora sorriu e disse: “Pronto, Juca, chegou sua dupla”. Ele, com os olhos arregalados, olhou bem para a menina e logo de cara se encantou. Era linda, uma princesa, nunca tinha visto nada igual, com seus cabelos loiros que parecia a luz do sol e seu olho azul como as ondas do mar, que ele só tinha visto na televisão. Catarina se apresentou, e perguntou: “Você sabe o que tem que fazer?” E Juca respondeu: “Vamos perguntar para a professora”. Ela ficou pensando: “poxa, o que aquele menino fazia na aula que não sabia o que se passava?’’. A atividade era contar um para o outro qual o seu desejo para quando crescessem, então Catarina disse: “Esta é fácil, serei uma renomada médica e salvarei o mundo”. Juca então disse: “Meu sonho é ser feliz e poder te ajudar a salvar o mundo”. Catarina escutou aquilo e pensou:”quem será ele, meu príncipe encantado, tão misterioso?”. Mas logo lembrou que já estava comprometida, com o capitão do time de futebol, e melhor aluno da escola.

A aula ia se terminando, e então vieram lhe encontrar, junto traziam notícias de sua mãe. Havia tido um súbito e não resistira, acabara morrendo. Seu coração se encheu de ardor, quanta tristeza naquele olhar. Clementino se decepcionou, pois Juca havia mentido sobre sua mãe, mas com o sentimento de empatia, compreendeu a atitude do menino. Então, daquele momento em diante, sua única família era aquele senhor caridoso, que com aquele tom suave demonstrava o quanto o amava, pois tinha ele como um filho que tanto havia desejado, pois sua esposa era estéril.O dia vinha raiando , quando acordou de um pesadelo o menino de apenas 13 anos, sozinho, abandonado, cheio de dúvidas e muitos medos. Vivia no morro Santana, em Porto Alegre/RS, vizinhos contavam a história de sua família, seu pai chefe de uma facção, acabara de ser morto, enquanto sua mãe estava presa com uma sentença inafiançável. O menino sem saber o que fazer da vida, tinha apenas uma certeza – que agora era a hora de crescer. Os vizinhos se questionavam, se ele iria continuar administrando os negócios de

seu pai, ou se haveria ainda esperança para que ele fosse uma pessoa honesta e trabalhadora. De todos do morro, apenas uma pessoa conhecia a real história e sabia quem ele era. Essa pessoa era a sua madrinha, Madalena era seu nome. Ela era muita amiga de seu pai, e ajudava a cuidar dele desde pequeno, ela sabia que ele era diferente, pois por detrás daquele menino frágil, pequeno, de olhos castanhos, havia um brilhante futuro, um homem forte e que conseguiria crescer e ajudar muitos outros a crescerem longe das drogas e do crime.

Naquele dia, o menino decidiu que iria sair do morro e ir para o centro em busca de um emprego, pois tinha medo de morrer que nem seu pai. Ele conversou com Madalena, que imediatamente quis impedi-lo, porém acabou incentivando que ele fosse, e deu a ele uns trocados de sua aposentadoria, que ela chamava de “melhor que nada”. Então ele se foi, indo em direção do nada, pois não sabia aonde ia, cantarolando pelas ruas, falando sozinho, querendo ser como um pássaro, e as horas se passavam, até anoitecer. Já cansado de andar, se encostou em uma árvore, ao lado

E ali, os dias e Juca foram se passando, escrevendo sua história.

*Texto produzido no componente curricular Literaturas Lusófonas, baseado na narrativa de Pepetela, “As aventuras de Ngunga”, que esteve sob responsabilidade do docente Ânderson Martins Pereira e da tutora a distância Ariane Avila Neto de Farias.

Junipampa