O cotidiano se transmutando em memória

                                                                                                                                                                                                                                                             Por Flávia Azambuja

Esse relato visa a demonstrar o trabalho com o preparo para a Olimpíada de Língua Portuguesa no ano de 2019. As aulas têm como foco o gênero memória literária, já que a intervenção aconteceu em turmas de 6º e 7º anos.  Nesse relato, contemplo o trabalho com 4 turmas, duas de 6º ano e duas de 7º ano. O trabalho realizado aconteceu na cidade de Lavras do Sul – RS, cidade pequena com cerca de 7 mil habitantes que surgiu pela extração do ouro e assim é conhecida como Terra do Ouro. A intervenção aconteceu em duas escolas públicas municipais e as turmas tinham em torno de 15 alunos. A seguir, apresento as tarefas propostas em aula, evidenciando as relações com as teorias que norteiam a prática.

A primeira tarefa foi uma conversa sobre a definição de memória, os alunos foram questionados sobre o que era memória e que palavras se relacionavam à memória. Essa tarefa tinha como objetivo ativar o conhecimento prévio dos alunos, para que em seguida, lessem definições da palavra “memória” em dicionários. Fizemos o mesmo com a palavra “literária”, para que os alunos pudessem começar a se familiarizar com o gênero textual trabalhado.

Após essa tarefa, os alunos leram memórias em áudio e escritas. Entendo textos a partir do conceito de multimodalidade, portanto entendo que os alunos leem diferentes tipos de textos e não somente escritos e verbais (KRESS E VAN LEEUWEN, 2010).  Além disso, buscamos integrar os conhecimentos prévios dos alunos ao conhecimento selecionado no texto, o que gera uma inferência (VARGAS, 2012, 2017), que, para mim, é o que retemos na memória quando lemos (KLEIMAN, 2001). Lemos as memórias “Transplante de menina” e “Parecida, mas diferente”, ambas disponíveis no site da Olimpíada. As memórias foram lidas e interpretadas. A seguir, pensamos nas características do gênero textual e relacionamos a análise linguística em relação aos adjetivos e aos verbos no pretérito perfeito.

A tarefa a seguir foi um exercício de criação de personagem. Esse personagem podia ser retomado nas suas memórias ou não. Os alunos que decidiram depois, mas pude observar que a maioria escolheu a si mesmo e manteve o personagem na memória literária. Os alunos deveriam escolher um nome, pensar em características físicas, psicológicas, o que o personagem gosta de fazer e desenhá-lo. Além disso, os alunos deveriam tentar descrever seu personagem usando a linguagem literária.  

Após a criação dos personagens, os alunos jogaram os jogos disponíveis no site da Olimpíada de Língua Portuguesa. Os jogos ajudaram bastante a pensar na linguagem literária.

Em seguida, os alunos pensaram em lugares de Lavras do Sul que poderiam aparecer e suas memórias, nessa etapa já tinham uma ideia do que escreveriam. Visitamos a igreja matriz da cidade, a câmara de vereadores, a praia do paredão e a gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Ao chegar aos lugares, os alunos tiraram fotos e fizeram perguntas sobre o lugar, quando era possível. Ao retornar à escola, os alunos descreveram o lugar escolhido, essa atividade também tinha como foco a linguagem literária.

Fig. 1 Visita à praia do Paredão

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Fonte: autora, 2019.

Fig. 2 Visita à Câmara de Vereadores.

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Fonte: autora, 2019.

Ao conversar com os alunos, percebi que alguns ainda não sabiam sobre o que escrever, por isso realizaram uma entrevista com os colegas, cada aluno entrevistou um colega e também foi entrevistado. Elaboramos um roteiro de perguntas colaborativo. Os alunos também realizaram a mesma entrevista com pessoas mais velhas, que podiam ser vizinhos e parentes.  Depois das entrevistas, os alunos que ainda não sabiam o que escrever, decidiram-se e outros optaram por mudar suas temáticas a partir das entrevistas.

Para inspirar os alunos, decidi escrever uma memória literária. Minha memória falava sobre o que havia me chamado a atenção em Lavras do Sul, visto que resido em uma cidade vizinha e trabalho em Lavras do Sul há pouco mais de seis meses.  Ao lerem minha memória, os alunos puderam perceber que podiam escrever sobre coisas simples, antes tinham a ideia de que uma memória para ser escrita devia ser grandiosa.

Excerto da memória literária “Terra do ouro e de carros com janelas abertas”

“Estranhei logo de cara que todos andavam sob duas ou quatro rodas, logo entendi que isso se deve justamente pelo relevo. Eu também tinha minhas rodas, rodinhas da mala que eu arrastava nas subidas e descidas enquanto desbravava esse novo lugar (já nos primeiros meses tive que substituir minhas rodinhas).”

Fonte: autora, 2019         

Durante a leitura e interpretação de minha memória literária, retomamos aspectos linguísticos e ligados ao gênero textual. Além disso, para essa retomada, criei um quiz com o auxílio da ferramenta Kahoot. Esse quiz tratava de aspectos linguísticos pontuais e textuais.

Fig. 3 Quiz sobre memória literária

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Fonte: autora, 2019.

Por fim, os alunos escreveram suas memórias sob minha orientação.  Após uma leitura atenta, fiz bilhetes orientadores dando sugestões para ampliar ou detalhar a temática, assim como para pensar em aspectos linguísticos.

Após revisão e reescrita, os alunos digitaram, formataram e submeteram seus textos ao site da Olimpíada de Língua Portuguesa. Para mim, foi muito gratificante fazer esse trabalho, visto que vai ao encontro das minhas concepções e a forma como trabalho em aula. Quando os alunos têm um interlocutor real, não escrevem somente para os professores os resultados vão além dos esperados. Sou uma professora feliz, realizada e muito orgulhosa de estar fazendo a diferença em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, em que os alunos tiveram a oportunidade de falar/escrever e perceberam que podem sim ser ouvidos/lidos.

E aqui temos os links dos textos escritos pelos alunos, e também publicados pelo Junipampa.

http://junipampa.info/colaboradores/eu-pela-primeira-vez-na-escolinha-de-futebol/#.XcGY4-hKjIU

 de Kauã Dutra

http://junipampa.info/educacao/eu-como-vereadora/#.XcGY9-hKjIU

de Nina Boeira

 

 

Referências Bibliográficas

KLEIMAN, Angela. Oficina de Leitura: Teoria e Prática. Campinas, SP: Pontes, 2001.

VARGAS, Diego da Silva. O plano inferencial em atividades de leitura: livro didático, cognição e ensino. Fevereiro 2012. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2012. Programa em Pós-Graduação em Letras (Letras Vernáculas) da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

VARGAS, Diego da Silva. Por uma visão cognitivista do processo de inferenciação em leitura. Revista Ciência e Cognição, v. 20, p. 313-330, 2015. Disponível em: http://www.cienciasecognicao.org/revista/index.php/cec/article/view/1024/pdf_64. Acesso em: 07 out. 2017.

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