O amor (sólido) em cartas de uma freira português x o amor líquido do séc. XXI

Stéfany Solari Maciel ¹ E-mail: Stefanysolari@gmail.com

 

Essa comunicação tem como objetivo, fazer uma reflexão sobre trechos da obra Cartas de uma freira portuguesa, em comparação com a obra do sociólogo Bauman (2004), Amor líquido,  a partir de um viés sociológico da obra. Será analisado neste ensaio a primeira carta composta por lirismos, angústias, medos e incertezas. As cartas presentes na obra contam a história de amor não correspondido por Mariana Alcoforado pelo oficial francês “de chamilly”, acredita-se ser uma história verídica que ocorreu pelos corredores do convento, há momentos que acredita-se que ambos tiveram uma relação mais profunda, outros somente uma troca de olhares. Chamilly, recebeu uma mensagem urgente, retratando a enfermidade de seu irmão, porém prometeu retornar para buscá-la, porém nunca  mais retornou, Mariana, desolada,  começa  a escrever cartas para o seu amado com a esperança do regresso, porém quanto mais o tempo passa mais ela tem certeza que o mesmo não retornará. A partir disso a proposta é analisar sociologicamente as tentativas de se defender do que é profundo ( seus sentimentos, amor), sem negar que para a personagem o amor pode ter uma característica mágica, e para ela o simples fato de apaixonar-se pode ser um caráter social. A memória cultural e o conceito de amor vem se constituindo socialmente  conforme as transformações sociais, inúmeros fatores, ela tem uma presença social, e não tem o mesmo valor em todas as sociedades. A esperança no retorno do seu amado faz com que a personagem viva da inconstância, do medo, da dúvida…Esquece-se que o indivíduo é uma totalidade sempre único e distinto dos demais. Sabemos que os valores mudam e se transforma com o tempo, porém será que esse discurso se faz presente no século XXI? Vivemos  uma era de liquidez nas relações  afetivas (ibidem), fala a respeito dessas relações que escorrem da nossas mãos com água, isso faz com que as relações não sejam para ser duradouras, mas será que o que Mariana passou não podemos considerar uma forma de liquidez? Será que Mariana não foi protagonista de dizeres futuros? Como se a personagem fosse protagonista ou melhor seja mensageira a quase 400 anos anteriores sobre uma possível modernidade líquida. Não podemos negar os fatos da opressão vivida pela mulher na época, e que Mariana estava a frente de seu tempo, além por causa da escrita, desafiando o mundo colocando os seus sentimentos que muitas vezes são negados/ ocultados em nossa sociedade, como o amor, a dúvida, desespero…Que em muitas vezes acabam deixando esse sujeito assujeitado do seu dizer. Ela tenta, ela nega, ela tem a esperança do retorno do seu amado, porém a esperança nunca é certeza. A afetividade que é retratada no primeiro capítulo, ora profunda ora rasa, faz com que a personagem sinta-se desamparada e frágil, faz com que seu discurso sobre a dor e sobre o amor seja algo tão volátil nos conceitos sociais, culturais e afetivos. Ela quer negar-se como na liquidez das palavras, mas ao mesmo tempo que ela nega com as incertezas que a modernidade faz com que nós tenhamos medo de nos entregarmos as relações mais profundas, ela coloca isso a parte ela volta e faz-se dizer que ela também é um sujeito de dizer, que ela tem sentimentos como qualquer outra pessoa, ela caminha em uma neblina de diversas incertezas, porém é aquelas incertezas que conseguem a deixar de pé e fazer compreender que as situações em qual ela passa, mesmo como uma certa dificuldade. Porém, o amor e a paixão tem aspectos historicamente sociais diferentes, se no caso Mariana vivesse no século XXI, tudo o que foi retratado seria considerado paixão, pois ela é algo impulsivo, momentâneo, é um sentimento tão forte que pode deixar o sujeito assujeitado às condições que passa, enfermo. O amor já é algo de maneira extrema a longo prazo, porém não podemos deixar enganar que a Mariana viveu uma “ espécie de amor líquido”, e transpôs em sua obra a sua fragilidade que atualmente é negada nos tempos atuais, pois vivemos em uma era que tudo é digital, descartável até os nossos próprios sentimentos. Nossas relações afetivas estão baseadas em curtidas no facebook, em aplicativos de relacionamentos… Sabemos que os tempos são outros, outras realidades. Mas esquecemos os contatos básicos que muitas vezes é o olhar nos olhos, um sorriso… Isso está presente nas obras literárias atuais, pois não vemos mais uma visão lírica do amor, e sim algo que vem se diluindo nos valores da sociedade. O amor vivido por Mariana, é algo chato, sonso, nos dias atuais, pois perde o caráter mágico e assume uma dimensão social com que faz com que os indivíduos se mantenham distanciados e não estejam mais loucamente esperando que seus compromissos durem uma eternidade.

 

Referências:

 

BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zorge Zahar Editor, 2004.

 Soror, Mariana Alcoforado. Cartas de uma freira Portuguesa.

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