Mas nem todos os homens

À medida que o feminismo se popularizou na internet, ficou impossível para nós, homens, não nos depararmos com algum discurso condenando comportamentos machistas que julgamos naturais ao longo de toda a vida. Bom, o fato de algo ser aceito por muito tempo não lhe dá legitimidade, basta lembrar de barbáries históricas que foram tratadas com naturalidade durante anos a fio.

Ao termos nosso modo de agir questionado, restam duas possibilidades: ouvir atentamente e tentar mudar ou entrar em negação; blindando-nos, consequentemente, de qualquer crítica. Nenhum caminho é garantia de ver-se livre do machismo, mas o segundo mantém as coisas exatamente como estão.

Uma das formas mais comuns de negar o que as mulheres questionam e reivindicam é rebater qualquer crítica ao machismo com a frase “mas nem todos os homens”. Não sei se podemos chamar essa fala de argumento, mas é uma maneira bastante egoísta de tirar o foco do que as feministas estão dizendo e trazê-lo para nós próprios.

A verdade é que homens brancos e héteros sempre foram vistos como indivíduos, nunca se sentiram parte de um grupo ao qual semelhantes consequências poderiam acontecer. Ao longo dos tempos, sempre fomos associados à virtude unicamente pela cor de nossa pele e por nos relacionarmos com mulheres. O oposto se dá com as minorias: tendem a ser vistas com desconfiança, sempre precisam provar seu valor, pois este jamais está implícito.

Há algum tempo, li o texto de um homem negro sobre racismo. Ele afirma que pessoas negras não compartilham com os brancos do mesmo sentimento de individualidade, pois a violência que ocorre com determinado negro poderia muito bem acontecer a qualquer outro, caso estivesse no lugar errado, na hora errada. Algo semelhante se dá com as mulheres, o abuso sofrido por uma delas representa um risco a todas as demais, um sinal de que qualquer uma delas pode ser a próxima a sofrer violência similar. Existe uma ligação entre as minorias que nós homens brancos e héteros desconhecemos empiricamente, o máximo de aproximação que podemos ter é mediante a escuta e a leitura – o que, obviamente, nos dá apenas algumas impressões distanciadas de como essas pessoas se sentem.

Em outras palavras, a defensiva “mas nem todos os homens” é uma resposta diante do fato inédito de homens brancos e heterossexuais se verem colocados em um mesmo grupo. Não um grupo que sofre semelhantes tipos de violência, mas que oprime de maneiras parecidas.

Precisávamos de tamanho choque de realidade. Nossa imagem falsa e imaculada de indivíduos acima da média, pelo simples fato de termos nascido brancos e heterossexuais, necessitava e ainda necessita muito ser questionada. Quem sabe assim, efetivamente, nos tornemos seres humanos melhores do que somos no momento.

Junipampa