Ilíada

achille-2165043_960_720Daniela Moro

Homero

 

Poema épico, de 24 contos e 15.000 versos. Ilíada não conta para o leitor a história da Guerra de Tróia, tampouco revela o seu final. O que apresenta, na verdade, são os relatos de um dos acontecimentos dentro dos 10 anos de guerra: A Ira de Aquiles. O poema se passa no último ano da guerra, durante os 51 dias que sucederam o cerco a Ílion, uma cidade murada que ficava na região de Tróia, conhecida hoje como Turquia.

A obra só foi escrita após muitos séculos de existência. Sua história vem da tradição oral, proclamada através da voz daqueles que a viam como uma espécie de livro sagrado, que não se resume a uma questão meramente moralista. A questão homérica, inclusive, surge a partir deste ponto: muitos estudiosos duvidam que o autor algum dia tenha existido, assim como duvidam que a Guerra de Tróia de fato tenha acontecido. O que se pode afirmar é que a incerteza histórica presenteia o leitor com o mais alto nível literário, sem preocupar-se com justificativas, sejam elas fantasiosas ou realísticas.

Aquiles, personagem principal do livro, lutava pelos lado dos gregos contra os troianos, desde que o “rapto” de Helena tornou-se o estopim para o início da Guerra de Troia. Para que chegassem a Ílion, cidade murada que deveria ser invadida, os gregos precisavam tomar para si todas as pequenas cidades que ficavam à sua volta. A Ira de Aquiles começa em uma destas cidades, quando os guerreiros tornam seus espólios as moças virgens e santificadas por Apolo. Naquele contexto, os espólios adquiridos por eles tinham um valor de guerra deveras significativo. Nos entraves pela retomada de Helena, Agamenon, rei grego, acaba ficando com Briseida, o espólio de Aquiles, que abandona a guerra por não admitir o ato insultuoso do rei.

Na época em que era declamada, todos os ouvintes já conheciam a história de Ilíada; todos sabiam que Paris raptou Helena, a levou até Tróia, que Aquiles morreu e que, em meio aos trâmites da guerra, haveria também um cavalo de madeira. Mas, a final de contas, por que esta história pode ser considerada tão importante?

Há dois temas extremamente significativos aqui. O primeiro consiste no modo como a guerra é tratada e discutida; era através dela que se criara o método mais oportuno de se conquistar a glória. Os deuses, personagens importantes da obra, estavam interessados nos atos individuais dos heróis e faziam questão de escolher um lado para lutarem entre si. É desta forma que a fama é construída: um homem mostra seu valor aos deuses e os entretém entre as mortes e a busca pela sua própria glorificação.

Porém, do mesmo modo em que glorifica a guerra, Ilíada simultaneamente expõe ao leitor a sua tragédia. Os detalhes significativos das tragédias da guerra, que geralmente envolvem as famílias e os moradores das cidades saqueadas, nos apresentam um contraste extremamente impactante. As mortes, no final, servem para enaltecer os horrores da guerra em contraponto a glória de suas conquistas.

O segundo ponto fantástico da obra faz referência a uma cena: Priam, pai de Heitor, implora a Aquiles pelo corpo de seu filho. “Sou um homem velho. Tive 50 filhos, uma vez, mas a maioria deles estão mortos, vários pelas suas mãos. Eu tive os melhores filhos, tive Heitor que era magnífico e você o matou. Por favor, posso apenas enterrá-lo? Por favor, você poderia apenas me dar essa única coisa? Dê-me o corpo de meu filho para que eu possa enterrá-lo”. Ao apreciar a humanidade do inimigo e estender o perdão a ele, Aquiles transmite uma das principais mensagens de Ilíada.

Para aqueles que acham Aquiles o guerreiro impetuoso de tom vilanesco por basearem-se, principalmente, no final impiedoso de Heitor, podem se considerar equivocados. O poema não se define entre bem e mal, assim como não se reduz a uma visão meramente moralista. As ações de Aquiles são motivadas por aqueles que acabaram sofrendo suas consequências. Todas as mortes causadas por sua ira serviram também a vontade de seus deuses. No fim das contas, Zeus sempre soube o que estava fazendo com a guerra de Tróia. O que o leitor não sabe são os motivos e as intenções Dele durante toda a história.

 

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