História de um dia triste*

Por Aline de Freitas Jacinto

 

Hora de desembarcar do transporte, em frente a porteira branca da escola, ainda meio sonolenta, pois vinha dormindo no caminho, depois de uma exaustiva noite de estudos. São 7:30, tropeço nos degraus do ônibus, mas me mantenho em pé. Observo a volta algumas crianças que já estão ali, correndo em volta da grande escola verde, outras sentadas frente às portas das salas atirando pedrinhas na calçadinha cinza que envolve a escola. Me dirijo, pela calçada, até o hall de entrada, onde fica o computador com o ponto, sobre uma classe em frente à secretaria, que é uma salinha pequena na qual fica a secretária sempre sorridente e cheia de coisas para fazer. Bato meu ponto, cumprimento a diretora que está sentada em sua grande cadeira verde localizada atrás de uma bela e enorme mesa marrom cheia de badulaques coloridos, ela me mira acima dos óculos e me retribui com um “olá”. Me dirijo até um sala da pré-escola, ambiente acolhedor, enfeitado com números, letras e alguns trabalhinhos dos alunos. A professora está sentada na única cadeira grande que há na sala, eu puxo uma pequenina cadeira amarela e ali sento, a professora recorta alguns bonequinhos para distribuir às crianças  e eu faço algumas leituras no meu tablet sobre a invisibilidade da América Latina no ensino da língua espanhola, claro tinha que ser leituras para o mestrado.

Chegam algumas crianças na sala, já aparcaram em frente à escola os grandes transportes amarelos e com eles vários rostinhos sorridentes, alguns bochechudos, outros mais finos, mas todos cheios de histórias para contar. Agora já são 7:45, entra na sala a pequena Helena, com seus volumosos cabelos crespos e claros que mais parecem palhinhas de aço, hoje, mais uma vez, sua mãe não a penteou. Ela se acomoda solitária em uma pequena cadeira e ali fica quietinha olhando para o nada. Eu, ainda sentada na pequenina cadeira, já com o bumbum quadrado, olho para aquele pequeno ser, indefeso e triste e lhe pergunto se está bem, ela somente balança a cabeça em sinal positivo.

Agora, 8:00, dá o sinal, vou para a minha sala de aula, um sexto ano com dezoito alunos, hoje vou trabalhar os substantivos. Entro na sala, hoje não faltou nenhum, faço a chamada e começo a escrever a data no quadro, todos têm algo para contar, o que comeram no café, que venderam leite e ovos, que tiveram que laçar o cavalo e até carnear um porco. Meu Deus, só de escutar a rotina dessas crianças já fico exausta.    Passo um texto no quadro, vamos começar pela leitura e interpretação, e lembro que deveria ter feito cópias para os alunos para trabalhar com a imagem que acompanha o texto, agora já não posso mais, pois as cópias devem ser levadas a reprografia com vinte e quatro horas de antecedência. Sigo passando o texto, olho pela janela e percebo que a professora da pré-escola não está na sala, a janela da minha sala tem vista para a janela da pré-escola, e levou com ela a pequena Helena. Sigo com as atividades em aula, os alunos naquele burburinho, pergunta pra lá,  pergunta pra cá, uns mandando os outros calarem a boca e eu claro pedindo silêncio. Bate o sinal para o intervalo, graças a Deus, eu penso. Saio da sala em direção a sala dos professores, hora do lanche, passo pela direção e vejo a porta fechada , estão em reunião, a diretora, a professora da pré escola e a pequena Helena, olho para a porteira de entrada da escola e observo que duas mulheres integrantes do Conselho Tutelar estão se aproximando. Elas entram na sala que está ocorrendo a reunião e fecham a porta. Eu fiquei ali, no sol, sentada esperando para ver o que tinha ocorrido. Fofoqueira, alguns colegas pensam, mas a minha preocupação com a criança é maior que com a opinião dos outros. 10:25, terminou o recreio. Alunos correndo no pátio,  desesperados para tomarem água, uma gritaria só. Todos voltam para a suas salas de aula, eu sigo ali, agora comendo uma bergamota, lagarteando no sol, como dizem aqui na fronteira. Não fui para sala, pois os meus alunos têm aula de História.

A porta se abre e eu sigo com o olhar atendo e ouvidos abertos para saber o que houve com a pequena Helena. As mulheres do Conselho Tutelar vão embora, Helena e a professora volta para a sala. Eu, delicadamente, peço licença para a professora e a chamo até a porta. Ela me conta o ocorrido. A inocente Helena chegou na escola e logo após o sinal de início para as aulas ela se queixou de dor em sua genitália, a professora relatou que a acompanhou ao banheiro, mas ela chorava muito e fazia gestos sinalizando que estava doendo muito, foi então que a professora encaminhou Helena para a diretora, para ver se conseguia resolver o problema, Helena, segundo a professora, seguia sempre chorando e disse que foi o seu pai que a machucou. Eu fiquei atordoada, não sabia se comia a bergamota ou se chorava. Por isso o conselho Tutelar na escola.

Me dirigi até a sala dos professores, não tinha mais porque eu estar ali, ouvindo o choro da triste menina que, supostamente, teria sido abusada pelo pai e rejeitada por sua mãe,  Helena, a menina triste e solitária de apenas 5 anos. Sentada em uma das macias cadeiras verdes da grande sala, observei pela fresta da porta que as moças do Conselho Tutelar haviam voltado, acredito que foram em casa trocar de roupa, pois estavam com blusas diferentes. Elas haviam voltado, o que será que queriam? Me desloquem até a rua, para tentar investigar, elas levaram Helena, onde foram? Perguntei a Diretora, elas haviam ido até o hospital para fazerem um exame para tentar detectar o suposto abuso, fiquei preocupada pois estava com medo que fossem falar com o pai de HELENA e ele fizesse algo com a menina.

Voltei para a minha sala, 11:15, os alunos seguiam lendo as páginas do livro de história, todos sentados em duplas, agora não tinha muito burburinho,  eles estavam entretidos com o texto. Eu só pensava o que aconteceria com a pequenina, tinha vontade de levá-la comigo, tinha certeza que poderia dar a ela tudo que necessitava. Olhei pela janela, a professora me fez um sinal que Helena havia voltado, fui até lá para ver o que tinha acontecido. A menina, Helena, seguia chorando, sentei ao lado dela e lhe dei um pirulito, os outros alunos questionaram porque ela havia ganhado pirulito se  não merecia, porque ela não fazia os trabalhinhos certos e estava sempre chorando, eu fiquei sem ação, simplesmente abracei a pequena Helena e lhe dei todo o meu carinho.     

A professora me informou que as meninas do Conselho haviam trazido Helena de volta e disseram que no exame havia acusado infecção urinária, eu fiquei em choque, pois a menina disse que o seu pai havia a machucado muito. Infelizmente quanto escola, não há mais o que fazer, me disse a diretora.

Hora de ir, 12:00, às crianças sobem nos transportes, que estão em frente à escola, todos muito sorridentes pois estão voltando para suas famílias,  menos Helena, ela ainda chora e sobe no transporte voltando seu olhar para trás pedindo ajuda para quem fica. Eu sigo para mais um turno de trabalho, mas sempre com o olhar triste de Helena em minha mente.

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*Texto produzido após oficina de jornalismo literário, ministrada por Giuliana Bruni na casa Pitanga. Atividade desenvolvida no mestrado profissional em ensino de línguas da Unipampa – Campus Bagé.

 

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