“Cidadões” – termo popular, variação linguística ou erro?

Autor: Tiago Santos da Rosa – Professor de Letras IFFar-CA. Mestrando do programa de Mestrado Profissional em Ensino de Línguas – UNIPAMPA – Bagé. Turma 2017.

 

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A Língua Portuguesa é rica fonte de análise e de polêmicas, veja a reestruturação do Acordo Ortográfico, o qual previa padronizar a língua entre os países falantes de Língua Portuguesa, mas sem levar em consideração as trajetórias linguísticas dos próprios países envolvidos, percebam que “as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”, citando Gonçalves Dias, escritor português. Esta pretensa padronização nada mais é do que uma reestruturação em 0,8% dos vocábulos formalmente relacionados em dicionários da língua no Brasil, e o que acontece com as outras palavras que porventura venham a ser construídas com novas intervenções linguísticas, no uso de gírias, de novas construções lexicais e semânticas? Uma coisa é certa – a língua é viva – e, se tem vida é passível de mutações, isso é a evolução.

Às transformações não damos importância devida, note que ao longo dos anos vamos acumulando um grande vocabulário, o que garante a comunicação entre nós e nossos pares, familiares, amigos; socialmente falando, somos agentes comunicativos, ou seja, usamos da forma que melhor nos convém a língua, se crianças usamos do balbuciar à linguagem dos bebês, assim podemos dizer, um falar digno da “fofura das crianças”; se adolescentes, sem os compromissos da vida adulta, usamos de uma linguagem um tanto mais elaborada e própria da idade, são somatórios de gírias, convenções linguísticas e falar típico; finalmente, quando adultos, há o que chamamos de monitoramento da fala e da escrita, pois já passamos por várias etapas da formação do falante e do escrevente, uma formação linguística básica.

Em uma análise da língua muitas coisas podem ser consideradas erradas, uma delas é concordar que existe uma única forma de falar corretamente. Isso mesmo! Àqueles que dominam as normas gramaticais, sejam eles pessoas comuns que gostam de estudar as regras da língua, “catedráticos” ou especialistas da língua, todos ansiosos por promover seu esmero em reconhecer a língua portuguesa e “normatizar” as falas, e costumam achar que “o outro” fala errado, fazem cada vez mais comum esse entendimento de “erros da língua”. Aos erros da língua podemos por outro prisma chamar de variantes linguísticas, é importante que todos saibam que existe uma área do saber que especialmente estuda as variações da língua e com rigor científico, que relaciona a investigação dos aspectos linguísticos da língua aos aspectos sociais, ou seja, onde a língua realmente acontece, análise em âmbito social e de caráter heterogêneo presente em um espaço interdisciplinar, na fronteira entre língua e sociedade – a Sociolinguística.

Embasado na possibilidade de analisar a língua como espaço de transformações este texto traz à baila, a constatação de uma fala bem comum em discursos voltados à questão social, talvez comunitária e mesmo política – qual o plural da palavra cidadão? Você já se perguntou? Qual das respostas você faria a opção? a. Cidadãos, b. Cidadões, c. Cidadães. A essa palavra dita no plural surge a dúvida e o monitoramento da fala e da escrita aparecem, consequentemente àqueles que ditam as regras do bem falar preconizam estereótipos aos falantes que não se enquadram na norma do bem escrever e bem falar, sem levar em conta variante alguma, considerando erros aqui e acolá, ainda corroborando para um certo distanciamento linguístico, melhor dizendo, preconceito linguístico, pois se falamos errado logicamente escrevemos errado. “Estas são as demandas que todos os cidadões têm direito”, neste exemplo de discurso nota-se o plural da palavra cidadão, o que aos olhos de alguns especialistas seria considerado erro na língua portuguesa, “[…] o capítulo da formação de plurais de substantivos terminados em    -ão é enrolado, mas quanto à palavra ‘cidadão’ não cabe dúvida: o plural é sempre ‘cidadãos’, e qualquer outra forma será considerada um simples erro. Pelo menos, assim é no português moderno em Gramática Histórica da Língua Portuguesa de M. Said Ali.”

A regra gramatical que rege o plural para palavras em -ão conta com três maneiras de formar o plural das palavras com esta terminação: (-ões) como em leões, (-ãos) como em irmãos e (-ães) como em pães. A razão desta variação está na forma da origem latina onde as palavras terminadas em -one formam o plural em -ões (leão = leone); palavras terminadas em -anu formam plurais em -ãos (irmão = germanu) e as palavras terminadas em -ane formam plural em -ães (pão = pane). Na língua portuguesa falada no Brasil a maioria das palavras terminadas em -ão forma plural em -ões, talvez nesta convenção linguística possa estar a causa da pronúncia em alguns discursos da forma “cidadões”, o que para alguns é considerado erro.

Sendo a língua viva e de certa forma permissiva a este fato linguístico podemos constatar um caso de oscilação entre -ãos/-ões, e mais uma vez desconsideramos o erro, mas sim evolução, onde notamos a maior flutuação entre aquilo que prevê a gramática normativa e a língua em uso, se os falantes decidem “acomodar” a palavra e corriqueiramente esta é proferida, acabará tornando-se aceita. Quanto à palavra cidadão é bem provável que, futuramente, ela passe a ter dois plurais admissíveis, o que não será nenhuma surpresa. Veja a seguir, o que diz oficialmente o texto sobre implicação da prática pedagógica para o ensino de língua portuguesa, linguagem e suas tecnologias nos parâmetros curriculares nacionais (PCNs de 1998):

[…] não existem, portanto, variedades fixas: em um mesmo espaço social convivem mescladas diferentes variedades linguísticas, geralmente associadas a diferentes valores sociais. Mais ainda, em uma sociedade como a brasileira, marcada por intensa movimentação de pessoas e intercâmbio cultural constante, o que se identifica é um intenso fenômeno de mescla linguística, isto é, em um mesmo espaço social convivem mescladas diferentes variedades linguísticas, geralmente associadas a diferentes valores sociais. O uso de uma ou outra forma de expressão depende, sobretudo, de fatores geográficos, socioeconômicos, de faixa etária, de gênero (sexo), da relação estabelecida entre os falantes e do contexto de fala.

Contando com o supracitado sobre o ensino de línguas no Brasil, certamente há uma diferença entre aquilo que se considera erro e o que consideramos variedade linguística. No que tange ao plural ‘cidadões’, esta uma palavra falada em contexto, apresenta uma concorrência de conjuntura normativa e de conjuntura etimológica cabendo uma formalização de registro nos manuais da língua e sem dúvida tipicamente uma palavra popular, não pode ser considerada erro linguístico. Comprovamos aqui aos cidadãos ou cidadões que não há uma única forma de falar correto, mas diferentes formas de fala.

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