A Influência do Espaço de Estudo na Aprendizagem

Willian Ely

Licenciatura em Letras Português – Inglês

Fotos: William Elly

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O belo desperta o bom. Na Unipampa temos Letras e Música – linguagem verbal e musical – mas e as linguagens visuais, onde estão? Que locais da Unipampa são aprazíveis?

Sou Willian, graduando do curso de Licenciatura em Letras, Português – Inglês da Unipampa. Venho de Sapucaia do Sul, região metropolitana de Porto Alegre e decidi escrever o meu trabalho de conclusão de curso sobre a influência do espaço na aprendizagem. E o que isto teria a ver com Letras? Para puxar o assunto à área das linguagens eu utilizei uma ciência que leva em consideração as outras formas de linguagem que não apenas a verbal, a Semiótica – que é, por definição o estudo de qualquer coisa que represente uma outra coisa – desenhos, flores e formas, por exemplo. A razão para eu querer estudar tal assunto é oriunda de experiências negativas nos dormitórios e repúblicas que tive de permanecer ao longo de minha formação. Ao término da graduação, pretendo publicar um artigo sobre este tema: A Influência do Espaço na Aprendizagem. Este é apenas o começo, um ´tapa na cara´ dos professores que exigem demais dos alunos, cujos ambientes conspiram contra seus aprendizados. Para entender mais sobre esta força que chamo de “conspiração”, utilizo conhecimentos de circulação de ar nos cômodos, a influência da luz, e a importância da cor.

Relato de Experiência

O primeiro dormitório em que sobrevivi quando vim a Bagé fica bem próximo à Unipampa. Permaneci nele por um ano, até cair em depressão profunda e buscar outro local. O que causava maior desconforto no primeiro kitnet era o posicionamento da pequena peça em relação ao sol – durante o verão, o calor inundava as quatro paredes desde o nascer até as 21h da noite. Devido ao tamanho pequeno, o calor se concentrava, e dormir neste local era complicado.  Nem ventilador surtia efeito – o ar era abafado pelas coisas aglomeradas – eletrodoméstico – cama, mesa, banheiro – tudo num só espaço. Um mato crescia à frente das peças e deixava as paredes cheias de bichos-cabeludos e até mesmo uma serpente foi morta por lá. Prova de que o entorno influencia e muito – é preciso manutenção e cuidado constante. Por último, não havia área coberta entre os quartos e a cozinha. Precisava pegar o guarda-chuvas e, segurando-o abrir um cadeado e uma chave para adentrar o local toda vez que quisesse preparar algo para comer. Em dias chuvosos – o local ficava facilmente embarrado e – ver tudo aquilo influenciava negativamente os ocupantes. É sabido que barro pode causar depressão, assim como paredes manchadas e mofo.

O segundo quarto em que morei tinha o pior dos defeitos: não tinha janela. Como passei um ano vivendo nele, consigo descrever todos os malefícios que um local como este tem à saúde de quem o ocupa. Primeira influência maléfica – hipersonia. O ser humano é influenciado pela luz solar que se achega aos olhos para acordar. Sendo assim, um local muito escuro é capaz de influenciar negativamente no sono, fazendo com que o estudante venha a se atrasar para as aulas – se estas ocorrem pela manhã. Segundo malefício: o mofo. O sol é um enorme curativo. A falta de luz solar gera um cheiro tão intenso no quarto que pode intensificar a rinite ou quaisquer problemas respiratórios que o ocupante apresente. Quer dizer, o mofo pode agravar os problemas respiratórios, e o que era “leve” se torna crônico. Ainda lembro o número de roupas que se esverdearam com o bolor. Resultado: irrecuperáveis! Todas para a lata de lixo.

O terceiro local que encontrei tem janela. Solucionei o problema. Mas, a partir do estudo da Harmonia de Ambientes, percebi que ele tinha outros problemas. Trata-se de uma casa muito antiga e as paredes são manchadas. O quarto é o local onde eu passaria horas estudando. Olhar para uma parede manchada influencia no estado psíquico negativamente. Por ter vivido em um local cheio de cores desde a infância, o branco em demasia me desanimava. Toda vez que voltava para a casa dos meus pais, em Sapucaia do Sul, sentia um bem-estar enorme; quando retornava a Bagé, um mal-estar. Antes de estudar o Feng Shui eu não sabia o que faltava; depois, descobri. Decoração.

O ser humano é capaz de depositar a alma nos objetos e todas as coisas que eu depositava minha alma estavam em Sapucaia do Sul, não em Bagé. Isso deveu-se ao pensamento equivocado que a estadia temporária para estudo noutra cidade não merecia o deslocamento de objetos decorativos e porque não – brinquedos. Muitas vezes, o pensamento que as pessoas têm é: por que tu trouxestes isso a Bagé? Guarda! Mas como é que você quer que eu guarde? Como no poema da epígrafe deste trabalho, ou em cofre para que eu perca a coisa à vista e esqueça que ela existe?

Por influência destes pensamentos equivocados de outras pessoas é que, por anos, vivi em Bagé sonhando sair daqui o mais rápido possível. Isso porque era no outro lugar que a minha alma havia ficado.

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Vaso feito com bambu cortado. O lixo pode virar luxo e isto prova que não é questão de dinheiro, mas de pensamento e valorização de um lugar bom para promover o bem-estar mental. Quem quer, faz. Quem não quer, inventa um impedimento.

Por que um trabalho como este se faz relevante? Porque tem muitos estudantes que vivem para partir. Que não trazem a própria alma para a cidade onde cursam a graduação e cujas péssimas condições estruturais das repúblicas universitárias influenciam negativamente seus estados emocionais.

Agora eu lanço a pergunta: é justo avaliar igualmente o estudante Bageense que tem toda a harmonia aplicada ao local onde vive, que tem família, sorriso e uma mesa cheia de gente amada aos domingos – com aquele que vêm de longe e vivem em ambientes desarmônicos? Digo isso porque fiz um trabalho de Psicologia da Educação em pé porque só havia internet numa estante alta. Das 23h às 6h da manhã em pé escrevendo o trabalho final que seria mais um passo rumo a minha formatura. Eu não tinha outra escolha.

Antes de achar que todos são iguais e não dar chance alguma aos estudantes que são de outros lugares, sugiro a você professor universitário, que vá viver nos locais onde os teus alunos vivem. Você seria capaz de ter o mesmo rendimento no trabalho se vivesse nessas condições? Não. Então, este trabalho é um grito por mudança e ela começa em você, que lê este trabalho agora. Olhe para o aluno e imagine onde ele mora antes de ser severo.

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Conto o que vivi porque esta verdade não pode permanecer cega. Eu não estava sozinho nestes lugares. Outras pessoas estavam junto a mim. Alguns partiram, outros, esperançosos, permaneceram. Se a Universidade Federal do Pampa – Bagé fosse um local mais harmônico, talvez, ir ao campus alimentaria o espírito de tantos que não possuem este alimento à alma, quando retornam aos seus dormitórios. Lugares sem alma. Branco deserto de luz florescente.

E o que é pior, estes lugares seguem sendo alugados atualmente. Continuam influenciando negativamente estudantes. No artigo que pretendo escrever ao término da graduação, explicarei mais aprofundadamente como a influência do espaço ocorre. E mais, darei dicas de melhoria aos espaços de estudantes forçados a permanecerem em locais doentes – permanentes numa única esperança: a de se formarem logo! Não estou exagerando, digo isto porque vi gente que estuda por aqui e sequer tem uma cama para dormir. Se você tem um local confortável, seu aprendizado será nítido e atingido com menos esforço. Já, se sente-se numa prisão, como é que aprenderás?

A você, professor, digo: antes de ser severo, vá até a casa/ dormitório/ república em que seu aluno estuda e compare com a sua casa. Se a sua residência for melhor que as condições estruturais dele, você é nitidamente um privilegiado.

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