Verdades de mentira ou mentiras verdadeiras?/ Coluna Saulo Eich

Imagem disponível em https://br.pinterest.com/pin/839358449297411843/.  Acesso: 24/11/2020.

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Acesso: 24/11/2020.

 

Por Saulo Eich

A mentira patológica, a mentira conveniente e a mentira necessária. De que forma vocês mentem? A pergunta é essa porque, sim, numa era onde condenamos tudo e todos e num país onde mentir é ferramenta de governo, seria igualmente muito mentiroso afirmarmos que não mentimos. Basta entender em que lugar, no espectro da mentira, nos encontramos. Quem nunca mentiu sobre uma real situação para não preocupar o outro? Ou para não ofender o outro? Se, dentro do que entendo por bonito ou feio, eu avaliar outra pessoa como feia, não necessariamente eu preciso ou devo jogar essa minha avaliação no centro de sua autoestima, certo? Está aí um tipo de mentira necessária. Nem todas as verdades precisam ser ditas a qualquer momento e em qualquer circunstância, ou viver em sociedade se tornaria insustentável. 

Existem também as mentiras convenientes, aquelas que geralmente usamos pra nos colocar em vantagem ou pra colher algum fruto, mesmo que de um modo evasivo. E, sinceramente, em algum momento todos nós já utilizamos esse recurso menos honesto. Mas quem mente por conveniência? O inseguro que precisa mostrar uma vida mais interessante do que realmente avalia ter? O político que precisa vender a imagem de salvador pra angariar eleitores e consequentes votos? A propósito, no último dia 15, tivemos a oportunidade de ver, de maneira muito clara, a mentira revertida em votos e em eleição (ou em reeleição). 

E existe também o mentiroso patológico. Um tipo de mentira que, ainda mais acentuada, eu diria que é mais aceitável e compreensível. E nisso entram tantos transtornos e condições de saúde mental que tornam necessário e conveniente ao patológico mentir. Necessário e conveniente ao patológico mentir. Pois bem. Seguindo essa (minha) lógica, é possível chegar a um novo entendimento para além dessa divisão da mentira em subtipos: a mentira, em qualquer circunstância, tem um Q de conveniência, necessidade e patologia. O fato é que ninguém mente por hobby. E é claro que entender isso não deve servir como argumento para naturalizar todo e qualquer tipo de mentira. A gente aprende, não via de regra, desde pequeno, que mentir é feio. Assim como a gente aprende sobre tanta coisa que é feia, mas que, por conveniência, necessidade ou patologia acabamos por praticar.

O ponto crucial dessa reflexão é sobre uma dicotomia pífia que nos classifica de maneira rasa e superficial: em mentirosos ou verdadeiros. É mentira afirmar que somos totalmente verdadeiros em todos os momentos. É verdade reconhecer que, por vezes, mentimos. Avaliar-nos dentro desse espectro da mentira – a necessária, a patológica ou a conveniente – e identificar onde nos enquadramos, nos permite entender o grau de gravidade dessa característica em nós e buscarmos as correções possíveis. A mentira nos condiciona a muitas situações desagradáveis, constrangedoras e, até mesmo, situações de perdas. 

A verdade nos eleva a uma condição de sermos pessoas melhores, mais honestas, justas e confiáveis. Mas, se é mentira que somos totalmente honestos, justos e confiáveis, estamos sendo honestos, justos e confiáveis ao nos vendermos como estritamente tais? (Também buguei!) Não ficamos mais próximos da verdade quando reconhecemos o quão falhos somos? Negando esse reconhecimento, estamos mentindo pra ninguém menos – e ninguém mais – que nós mesmos. E o mestre Renato Russo já havia nos dado a letra que “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”

Até o mês que vem!

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saulo

Saulo Eich é psicólogo clínico infantil e adulto, 

de abordagem Cognitivo Comportamental, em Bagé/RS.

Comentários
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