Uma leitura de O primeiro beijo de Clarice Lispector

lispector

 

Por Icaro Claro Olanda

Publicado pela primeira vez em 1971, O primeiro Beijo, de Clarice Lispector, é um dos contos reunidos no livro “Felicidade Clandestina”. ​Esta narrativa reafirma a genialidade da autora diante de um fato corriqueiro que, sob seu olhar, torna-se maravilhoso e extremamente relevante para uma análise. Clarice enquadra-se na geração de 45, terceira fase do Modernismo Brasileiro. Em seus textos o subconsciente, sensações e sentimentos de seus personagens são características presentes em toda sua obra. A escritora toma           ações banais do cotidiano e as torna complexas pelo novo ângulo como são narradas essas ações. Isso se dá pelo excelente trabalho com a linguagem. Não seria diferente em “O primeiro Beijo”, história de um casal de namorados que recentemente estavam juntos e, inebriados pelo amor, andavam tontos. Mas, de repente, inevitavelmente o ciúme aparece e, a partir desse sentimento, a narrativa é desenvolvida para responder à amada quanto ao seu questionamento sobre o fato se seria ela a primeira mulher que ele beijara em vida. Ele responde que não e nos conta que seu primeiro beijo fora com uma               estátua de mulher. Uma das hipóteses interpretativas para esse texto seria a perda da inocência que o personagem vivencia. Para compreender esta hipótese devemos perceber que a narrativa é dividida em dois momentos, a saber: um no presente e outro em um passado não muito distante e marcado pelo momento em que temos a resposta do rapaz para sua namorada. Essa divisão se dá através do ciúme, sentimento tão comum nos namoros adolescentes. No primeiro momento não são atribuídas características físicas aos personagens, fato que torna o enredo tão cotidiano, mas muito interessante pela forma em que será abordado o tema da perda da inocência. O narrador é onisciente e o tempo é indeterminado no sentido cronológico, pois não temos definição de datas. Começamos a notar elementos sensuais, mesmo que inconscientes – características dos personagens de Clarice – que envolve o garoto através do vento, elemento simbolicamente associado ao sexo, como explicitado nos excertos: “deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e            entrar-lhe pelos cabelos com os dedos longos…”(pág. 434); “ e apenas sentir-se era tão bom” (pág. 434). A complicação do conto é mostrada em decorrência do personagem, agora um garoto, encontrar-se numa excursão com outros garotos em meio a uma algazarra e atos comuns a esta idade. O instinto natural de se saciar de água, ou seja, aliviar a sua sede, no contexto do enredo, entra agora como uma complicação dessa parte da narrativa. Percebemos como a sensualidade pode ser, aos poucos, revelada e, mesmo que o garoto não perceba, certas ações inconscientes desencadeiam esse fenômeno. Para tentar aliviar a sede, juntou saliva e a engolia como tentativa de melhora, pois tinha “uma sede enorme maior que ele próprio, que lhe tomava agora todo o corpo” (pág. 434). Chegamos em um ponto em que ele pressentia estar perto da água: “o instinto animal dentro dele não errara…”( pág.453). O personagem conseguiu chegar à fonte d’água: um chafariz, antes de todos, quando o ônibus em que viajavam, parou. Nesse momento, nos encontramos perto do clímax do enredo: “de olhos           fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava água” (pág.435), “o primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga” (pág.435). Assim, uma visão sensual e quase erótica é vivenciada involuntariamente pelo garoto. A partir daí, uma explosão de sensações apodera-se dele, pois ao abrir os olhos tomou consciência de que beijava uma estátua de mulher. Aqui temos os primeiros sinais de que a pureza de criança está acabando, uma vez que uma criança faria a mesma ação sem nenhuma constatação diferente da dele, ao contrário poderia ser engraçado beijar uma estátua. Ele tomou consciência de que algo mudara nele: “a vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra” (pág.435). Vemos, então, que o personagem começa a fazer questionamentos sobre o processo de fecundação de vida: “mas não é da mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida… olhou a estátua nua”( pág.435). Nesse ponto ele percebe que beijou uma mulher, mesmo que ela não fosse de carne e osso. Isso nos remete ao simbolismo que ela exerce sobre a transição e a perda da inocência do garoto: “perturbado, atônito,percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido”(pág.436).  Enfim, esse conto retrata a dualidade entre infância e adolescência e mostra como fatos, sensações e simbolismos implicam nessa transição. Por último, o personagem constata que deixou a infância e começou a andar para a adolescência: “que logo encheu de susto e logo também de orgulho antes jamais sentido: ele…. Ele se tornara homem” (pág.436). Vale ressaltar ainda, que essa narrativa tem como desfecho uma única frase que reforça a hipótese interpretativa: a perda da inocência.

LISPECTOR, Clarice.  O primeiro beijo. In: LISPECTOR, Clarice. ​Todos os contos​. Organização de Benjamin Moser. Rio de Janeiro: Rocco, 2016, p. 434-436.

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *