Tristeza, depressão e o perigo de remédios psiquiátricos: relato como alerta

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legenda foto: morrendo lentamente

Por Mônica Carolina

Em algum dos meus textos já falei sobre doenças psiquiátricas e relatei como é viver com o transtorno de personalidade borderline, que tem como sintomas depressão profunda, ansiedade, atitudes auto destrutivas, impulsividade, medo do abandono e o sentir extremo, até mesmo com situações que pessoas que não possuem esse transtorno, lidariam de forma mais natural. O que eu não disse nesses textos foi de onde isso surgiu e como a falta de reflexão, por desconhecimento meu e da minha família, fez com que eu me tornasse uma total dependente química de um medicamento, clonazepam, no caso, mais conhecido como rivotril.

Para começar, meus problemas de adolescente não eram ainda depressão, eu ainda não tinha desenvolvido esse transtorno: eram só problemas pelos quais a maioria dos adolescentes passam: término com namorado, luto pela morte de um ente querido, medo de não ser aceita, nervosismo, quando iria para uma festa diferente. Gostaria de dar ênfase ao fato de que essas dores, geralmente passam ou, passavam para mim, já que, mesmo convivendo com essas lutas interiores, eu era feliz em estudar, em participar do time de vôlei e futebol da cidade e era muito feliz com minha vida, de modo geral, com meus amigos e com minha família. O que havia eram momentos de tristeza. Às vezes não conseguia dormir rapidamente, mas não pode ser considerado como insônia: eu lia um pouco, saía para caminhar, tomava um chá e estava tudo resolvido. Luto passa, términos de relacionamentos passam, frustração por não ter passado em uma faculdade ou conseguido determinado trabalho pode caracterizar-se por algo natural da vida, assim como perdas. É normal você ficar triste por certo período quando as coisas não estão tão bem e isso não é depressão. Depressão é quando você segue nesse estado de tristeza mais tempo que o normal e eu não era uma pessoa depressiva.

Adolescência é uma fase complicada caracterizada pela ânsia de ser aceita, de construir sua personalidade e de ter que lidar com essa transição para a fase adulta, durante a qual é preciso fazer muitas escolhas. Essa é também a fase que as pessoas descobrem o álcool, a maconha e, em alguns casos, drogas que podem ser extremamente destrutivas. Lembro que quando eu era mais nova, tinha a certeza de que tinha maturidade o suficiente para encarar isso tudo com o total controle, mas hoje vejo que não e, tenho a certeza de que muitos adolescentes possuem esse mesmo sentimento que eu: da auto suficiência, sentimento de superioridade, entre outras coisas e é o dever da família orientar o adolescente para que ele passe por isso de forma mais tranquila. O problema é que, muitas vezes, a família simplesmente não sabe como fazê-lo e, acredite, isso não é culpa dos pais ou sequer do adolescente. Podemos colocar a culpa na falta de comunicação existente e em uma sociedade que pune ao invés de escolher o amor e a compreensão.

Minha família não teve a mínima culpa por eu ter começado a tomar a medicação, já que para eles, era o melhor pra mim, mas, infelizmente, não era disso que eu precisava. Após um acontecimento que me machucou bastante, fiquei mais introspectiva e para todos que me cercavam eu estava louca. Estava triste, de fato, mas tendo depressão hoje, sei que aquilo não era de longe depressão e que apenas com conversa eu entraria nos eixos, mas acabou que não tive escolha a não ser aceitar ingerir essas substâncias. Meu primeiro médico me diagnosticou erroneamente: transtorno esquizotímico e, para isso, precisei tomar 13 remédios diariamente. Me tornei um zumbi, dormia o tempo todo, comecei a ter ansiedade, minha tristeza, ao invés de temporária, tornou-se constante. Tinha passado no vestibulinho para o Cotil, que é uma escola da Unicamp, super disputada. Como sonhei em estar lá! Sempre fui uma excelente aluna e, de repente, estava tirando as piores notas da minha vida (cheguei a tirar 1,6 em uma disciplina que gostava muito) e, posteriormente, desisti de vez. A sensação de derrota somada aos meus sentimentos que, a esse ponto, estavam um lixo, fez com que eu tentasse cometer suicídio pela primeira vez. O sentimento de impotência foi pior e aí sim minha depressão entrou no ápice, juntamente com a ansiedade e outros sintomas desconhecidos por mim até então.

Depois desses acontecimentos que acabei de relatar, resolvi me mudar para o Rio de Janeiro, uma tia que mora lá, se compadeceu da minha situação e como sempre fomos muito próximas, tentou me ajudar. Eu já não tomava os 13 remédios mais, mas por algum motivo que não sabia explicar, sentia-me muito mal quando faltava o remédio clonazepam. Passei em um ótimo psiquiatra e psicóloga, depois de muitas consultas ele me diagnosticou como Borderline e disse sobre o médico anterior ter errado feio e prejudicado um pouco meu tratamento. Ok. Tive uma melhora com esse tratamento, mas isso não me impediu que eu tentasse me matar de novo. Parecia que eu estava piorando cada vez mais, enterrando a mim mesma em um lugar escuro, onde seria impossível escapar. Resumindo: depois de certo tempo consegui me “estabilizar” apenas utilizando o clonazepam, tinha/tenho surtos, depressão, mudanças de humor, mas, comparado ao meu estado anterior, estava mil vezes melhor. O problema do clonazepam, especificamente, é que o uso recomendo é por pouquíssimo tempo (para casos de crise), se o uso consistir por mais tempo que o tempo aconselhado (que creio ser seis semanas), gera dependência química, mas isso os médicos nunca me falaram…

Algumas semanas atrás decidi que queria parar com o rivotril, viver uma vida normal sem depender de um remédio para poder sair do meu quarto, então passei por aquilo que é chamado de “Crise de Abstinência”. Foi horrível. Os sintomas dessa abstinência duram de quatorze a vinte um dias e os sintomas, que vivenciei, consistem em desânimo, dores de cabeça, tontura, perda de apetite, ânsia, tremor intenso, espasmos musculares, suar frio, sensibilidade extrema na audição e na visão, despersonalização (perda de percepção da realidade, na qual chega a ser difícil distinguir o sonho da vida real), dificuldade em me concentrar e vontade de morrer 24h por dia. É o verdadeiro inferno (os sintomas dessa abstinência são muito parecidos com os sintomas da abstinência do crack). Durante esses dias não sai de casa, ia a um grupo de meditação quando conseguia, mas o que fazia eu tentar continuar eram os relatos de pessoas que conseguiam (pouquíssimas), na maioria dos depoimentos as pessoas relatavam desistir de tentar parar no terceiro dia. Geralmente as pessoas que conseguiam sair dessa condição, saíam porque eram mulheres, estavam grávidas e o uso do remédio atrapalharia a gravidez. Enfim, consegui enfrentar essa fase. Eu venci isso. Mas não venci os dias posteriores. Lembro-me bem que antes da medicação, apesar de tímida, conseguia enfrentar a vida, as pessoas, eu era normal e, agora, sair da cama é a tarefa mais difícil do mundo e eu não conseguiria retornar a universidade sem a medicação. Honestamente, foi a experiência mais difícil de toda minha vida (e olha que já passei por muita coisa). Sou dependente química do remédio e não faço ideia de como me livrar disso, realmente me parece que não há jeito.

Não quero erguer uma bandeira contra o uso de remédios psiquiátricos (embora tenha vontade), já que muitas pessoas o utilizam e é de extrema importância para que elas vivam (ou sobrevivam), mas gostaria de atentar ao fato de que as pessoas deveriam pensar bastante antes de começar um tratamento com remédios. Aqui falei sobre um ansiolítico, porém tenho muitos amigos que não conseguem mais viver sem antidepressivos e que ficam extremamente frustrados, assim como eu, por depender disso. Se conheça, primeiramente. Tristeza é algo natural da vida humana, não há como ter somente tempos bons. Tristeza e depressão são coisas extremamente diferentes. Ter dificuldade de dormir também é algo natural. O conselho que dou, com todo amor do mundo, é que se você estiver passando por um momento difícil ou algo do tipo, procure meios naturais! Tenho tomado chá de maracujá, não é químico e dá um sono danado. Busque alternativas para seu sofrimento! Há tantas coisas no mundo, muitas delas você não precisa pagar um centavo para melhorar consideravelmente sua qualidade de vida. Faça isso, pesquise, converse e, deixe os remédios para o último caso, porque isso é, na maioria das vezes, um caminho sem volta.

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