Sobre o que fazemos e não mostramos para ninguém

Melissa Barbieri

Dizem que o que fazemos é a forma mais honesta de exposição de quem realmente somos. Enquanto escrevo esse texto, por exemplo, sei que o faço para ser lido por outras pessoas, assim, sei também que estarei me expondo de certa forma quando for lido por elas, mas não será esse o tipo de exposição de que pretendo falar nesse texto. Pretendo falar da exposição que tecnicamente só acontece se alguém chegar do nada e te flagrar cantando (coisa que você nunca faz na frente dos outros), ou abrir seu caderno e achar desenhos ou textos que nunca mostrou para ninguém.

Já esse texto faço com um intuito, e esse intuito abrange ser lido por terceiros, ele é voluntário, faz parte dos meus planos, eu me programei para começar a escrevê-lo hoje, em um domingo, durante a tarde, porque em geral não consigo escrever de manhã e porque à noite minha cabeça é sempre muito acelerada. Desta forma, ele é diferente de outros textos, que escrevi porque algo – ou absolutamente nada – apertou um gatilho em mim e eu precisei pôr aquilo em um papel. Muitas reescritas ou continuações desses textos exigiram arrumar horários, planejar, por assim dizer, mas a ideia, a necessidade inicial, pelo menos para mim, sempre surge de maneira totalmente involuntária e inesperada. Este texto que escrevo agora não é um dos poucos que restaram em cadernos mais recentes, não é um dos que viraram cinzas quando pus fogo em cadernos velhos, não é nenhum dos que tenho ao acaso dentro de cartões de memória que talvez não funcionem mais ou das notas do meu antigo celular que estragou. Esses textos de que acabo de falar são exatamente o motivo deste. Esses, que se lidos por alguém, seriam exatamente me expor no sentido de exposição que abordo aqui. Expor, não o que sei fazer ou acho que sei fazer, mas o que faço “quando ninguém está olhando”, como se diz por aí.

Talvez alguém venha a dizer que viver é se expor, que diariamente damos a cara a tapa, e eu concordo com isso de certa forma. Diariamente somos postos à prova em diversas situações e nem percebemos, pois são desafios que já fazem parte da nossa rotina. Quando eu era pequena, por exemplo, a quantidade de carros nas ruas do pequeno trajeto diário que fazia até a escola era muito pequeno. Olhar para os dois lados da rua mais de uma vez era mais uma questão de “só para não perder um costume necessário” do que necessariamente de urgência. As probabilidades de aparecer um carro de repente eram sempre extremamente pequenas. Quando mudei para uma outra escola, anos depois, o percurso passou a incluir um ônibus e alguns poucos instantes de caminhada. A partir daí, os carros passaram a ser um desafio, eles estavam em quantidade maior, as faixas de segurança eram quase inexistentes e as que tinham não eram muito respeitadas. Não havia engarrafamentos, acidentes, nada disso, mas era uma situação, a meu ver, estressante. Para completar, sempre fui bastante apreensiva em relação a tudo. Não do tipo que acha que o mundo vai acabar amanhã, mas do tipo que trava e se sente ansiosa em situações extremamente banais, como ter de lidar com carros passando, por exemplo, e sempre acaba agindo de um jeito estranho diante de tais situações, percebam as outras pessoas ou não (e eu duvido muito que não percebam). Seja como for, esse – atravessar uma rua cheia de carros – é um desafio que já acostumei a fazer diariamente, já virou parte da minha rotina. Sou posta à prova todos os dias pela sensação de ansiedade que me causa a situação, mas mal noto ou se noto, finjo que não.

Em suma, sim, diariamente temos nossos desafios e nos expomos, por mais trivial que seja a circunstância. No entanto, essas são situações de rotina, parte de um cronograma de atividades que com o passar do tempo passamos a fazer quase tão automaticamente quanto acordar ou comer, não são situações que nos demandam expressão do que sentimos, não são situações que nos puxam por gosto e/ou necessidade impulsiva de fazê-las. Escrever, assim como desenhar, cantar, tocar um instrumento, ou mesmo falar sobre algo que temos grande identificação ou afetividade, é.

Quando penso em amigos que tenho e tive, poderia dizer que pelo menos 40% deles escreviam ou faziam outras coisas, como desenhar, e não mostravam seu trabalho – ou seja lá como eu deveria chamar – para nenhuma outra pessoa, o que incluía também a minha pessoa. Eu sabia que faziam uma determinada coisa, mas nunca tinha visto, da mesma forma que sabiam que eu escrevia, por exemplo, e também nunca tinham visto nenhum texto meu. Era uma via de mão dupla, afinal. Lembro até hoje da primeira vez que uma amiga que conheço há cerca de seis anos, me enviou um áudio cantando. Uma das melhores vozes que já ouvi e, ainda assim, que poucas pessoas até hoje ouviram.

Com o passar do tempo, fui apresentada ao que alguns amigos produziam e eles, ao que eu produzia, como uma troca de segredos que não eram bem segredos. Mostrávamos um para o outro, mas não para outras pessoas. Até hoje, muitos deles seguem sem mostrar o que fazem, assim como eu, por muito tempo. Pensar no que nos leva a tal coisa é mais um chute. Talvez o receio à exposição seja um dos motivos. Escrever, por exemplo, é um ato que considero bastante pessoal, íntimo, eu diria, demanda nos mostrarmos de uma maneira até então inédita, e isso independente de quem for ler, ter lido dez ou nenhum texto nosso antes. Talvez porque simplesmente fazemos o que fazemos para nós mesmos e mostrar a outras pessoas não parece fazer sentido. Porque consideramos quase uma terapia particular, então só queremos que, por favor, cada um cuide da terapia que lhe diz respeito – a sua própria. Talvez porque temos medo de ouvir que aquilo que fazemos é ruim, até medíocre. Talvez porque somos extremamente perfeccionistas e só mostraremos quando acharmos que está devidamente pronto. E, nesse último caso, talvez essa seja uma outra forma de dizer que nunca mostraremos para ninguém. Talvez não seja por nenhuma dessas razões, talvez seja por todas elas juntas. Talvez descobrir o porquê disso e refletir a respeito faça uma imensa diferença para muitos, talvez não faça diferença alguma para ninguém. Mas o fato é que, sendo a questão desse texto o quanto (não) nos expomos, falta perceber que se escrevemos, desenhamos, tocamos, cantamos, ou qualquer outra coisa do gênero, automaticamente nos expomos, se não para terceiros, com certeza para nós mesmos.

(Imagem de destaque: Pinterest)

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