O ambiente acadêmico afetará toda sua vida – e nem sempre positivamente

30729609_385510485189219_8369855773353705472_nPor Monica Carolina

A universidade pode parecer, muitas vezes (senão sempre), um local demasiadamente assustador. Para começo de conversa, uma quantia enorme de pessoas saem de uma escola pública onde há uma certa defasagem no ensino. Se o estudante quer seguir no ensino superior, há duas opções para ele: universidade pública ou privada. Aqueles que não possuem dinheiro para pagar uma universidade privada e, nem um cursinho pré-vestibular, como foi meu caso, passam por um cansaço mental (e físico) enorme: primeiro porque estudar por conta e ter disciplina para isso não é fácil, segundo porque há uma pressão enorme da família e da sociedade para que você entre no ensino superior assim que sai do ensino médio e, terceiro, mesmo que você estude por conta, é quase impossível ir bem em matérias como, por exemplo, química; e não porque você não tenha estudado ou se esforçado o bastante para isso, mas sim porque as questões relativas a isso, que caem no ENEM, são extremamente difíceis. Sem contar que o ENEM é um modo classificatório extremamente elitista. Mas, apesar de tudo, aí está você! Apesar de todo estresse, perrengues e extrema ansiedade, conseguiu chegar dentro do local que queria estar e é aí que a universidade pode parecer, muitas vezes (senão sempre), um local demasiadamente assustador, ainda mais no começo dessa jornada acadêmica.

Atualmente, estou no último ano de meu curso, Letras-Línguas Adicionais (Inglês, Espanhol e Suas Respectivas Literaturas) e consigo agir de forma mais calma ao que se refere às adversidades da Universidade, mas recordo que no início estava bem aterrorizada, perguntando-me como iria sobreviver a isso. Como iria sobreviver aos professores desumanos, que não se dão conta que sua matéria não é a única, que temos que aprender e passam trabalhos gigantescos e totalmente “no sense”, (levando em conta que, comparado a alguns professores da área de exatas que colam nas paredes as notas de alunos que estão abaixo da média esperada no semestre, para que ele/ela se sinta mais lixo ainda, tive até sorte); como iria sobreviver a longa carga horária do curso; como iria sobreviver a falta de dinheiro (já que, como venho de uma família relativamente pobre, teria que economizar até a alma e, por fim, como iria sobreviver a mim mesma, porque a Universidade é uma parte da minha vida, não minha vida toda (como alguns professores ditam que deve ser) e conciliar nossa vida pessoal/emocional/psicológica com a faculdade não é uma tarefa tão fácil, quanto parece, ainda mais nessa fase de descobertas e transição da adolescência para a fase adulta.

Naquele período de total êxtase, por estar iniciando uma nova fase e de desespero por não saber lidar muito bem com isso, eu e duas amigas, no terceiro semestres, fizemos um documentário intitulado “Depressão na Universidade” (aliás, esse texto está disponível no Junipampa). Para esse documentário, criamos questionários quantitativos e qualitativos no grupo “Unipampa- Universidade Federal do Pampa” e obtivemos a resposta de 607 alunos. Os resultados da época nos mostraram que 87% destes alunos que nos responderam sentem-se melancólicos, irritados ou ansiosos com frequência; desses, 72,8% afirmaram que isso começou depois de seu ingresso na Universidade; 88.5% sentem sua vida emocional afetada diretamente pelo ambiente acadêmico e 76,9% dos estudantes que responderam à pesquisa se consideram pessoas depressivas ou ansiosas. Também fizemos uma pesquisa qualitativa, onde perguntamos como a faculdade afeta suas vidas e obtivemos respostas como: “Muito cansada e ansiosa.” “Sempre preocupada.” “Mesmo estudando, sinto que nunca é o suficiente” e “A carga horária que temos é muito grande.” “Isto impacta nossas vidas pessoais de modo que muitas vezes não conseguimos respirar e parar um pouco para cuidar de nós mesmos”. Honestamente, creio que se a mesma pesquisa fosse realizada hoje, as respostas seriam iguais – a universidade, muitas vezes, nos leva a criar problemas psíquicos que nem poderíamos imaginar que existiam.

Creio que muitos viram a recente história do estudante Lucas Camargo, que viralizou no Facebook, depois de um amigo postar um texto sobre. O garoto, em questão, era futuro Engenheiro Mecânico Naval, já estava concluindo o curso, mas na reta final, por não ser convocado e rejeitado várias vezes na etapa do estágio, não aguentou e acabou cometendo suicídio. Para muitos, deve parecer pouco suicidar-se devido a isso, porém é como seu amigo, Matheus Ribeiro, escreveu em sua publicação: não foi apenas o estágio em si, mas uma série de fatores frustrantes que levou o garoto a tomar essa atitude, ele cita, por exemplo, os professores que não possuem didática, professores que além de não possuir didática, infernizam a vida dos alunos e o péssimo critério de avaliação. Qualquer estudante no meio acadêmico consegue entender muito bem sobre isso, além de conseguir associar essas palavras, diretamente, com suas próprias vivências. O Lucas não está sozinho, deve ter muito mais universitário se matando e se destruindo devido ao modo que o sistema acadêmico funciona.

Apesar de não haver algo sólido sobre a quantidade de estudantes universitários que cometem suicídio, li a pouco um artigo intitulado “Suicídio de universitários: o vazio existencial de jovens na contemporaneidade”, onde a autora, Elza Dutra, entrevistou alunos de várias regiões e mostrou que muitos estudantes universitários tentam cometer suicídio, pensam sobre ou começam abusar de álcool e drogas (lícitas e ilícitas) para conseguir suportar a realidade. Em meu caso, já tentei, já pensei e utilizo, com uma grande frequência, essas substâncias como válvula de escapes, juntamente com outros companheiros e conhecidos da universidade. E cada vez mais tenho visto relatos no Facebook, de alunos, conhecidos e amigos, dizendo o quão se sentem incapazes, desmotivados, ansiosos e tristes devido  a alguns professores em particular e devido a toda essa pressão, que mencionei anteriormente, pela qual passamos. No último mês conversei com um amigo que contou ter desistido do curso de Engenharia, pois estava o deixando louco, disse que passou em uma psicóloga e agora toma seis remédios psiquiátricos, que fica triste por ter desistido, mas que, ao menos, agora tem uma certa paz. Não faço ideia de como elaborar propostas para ajudar essas pessoas, creio que é um problema muito grande e que exigiria anos de esforço para mudar essa realidade, mas gostaria muito que, principalmente, os novos alunos, soubessem que, apesar de tudo, não estão sozinhos. É difícil e é horrível e você tem vontade de morrer, mas sempre tem momentos bons e pessoas queridas com quem você pode dividir suas frustrações. Creio que minha maior dica seria “não se cale”, pode até parecer clichê, mas quando você fala o que sente- seja no facebook, seja na cara do professor que está sendo abusivo com você ou seja mandando emails para os professores, explicando que neste momento você não está muito bem,- você exerce sua liberdade de não estar bem e de demonstrar que nem sempre concorda com tudo que está acontecendo ao seu redor e, quando você faz isso, automaticamente ajuda seus companheiros a se libertarem e, pode não ser a solução do problema todo, mas ter voz já é um grande avanço. Força!

Fonte imagem: http://www.temdicas.com/wp-content/uploads/2014/05/Como-Estudar-para-a-Prova-do-ENEM-0.jpg

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