#me tira daqui!!!

Por Moacir Lopes de Camargos

Acordei naquela manhã cinza com uma tremenda dor de cabeça e de estômago. Onde era mesmo aquele hotel? Eu me sentia Clarice: hoje estou oca por dentro. Decidi tomar soro para preencher o vazio, aliviar-me. Não teve mensagem: que vamos fazer hoje? Praia? Lembrei-me de uma bata, presente de uma amiga (a CLO, assim mesmo com maiúsculas), amarelada pelo tempo, triste, solitária. Teria que recuperá-la, iluminá-la. Aquela peça era parte da nossa história, da nossa amizade. Os três elefantes bordados bem ao peito representavam a nossa trajetória na pós-graduação, nossos enfrentamentos, os sonhos, os caminhos a trilhar…

Entrei no ônibus rumo à tinturaria e sentei-me na poltrona isolada, individual, no canto, meio escondida. A máscara cobria meu rosto, meu medo, tudo era distante. Mas, de repente, pensei por que sempre escolhia essa poltrona, mesmo quando estava sem máscara. Talvez eu já soubesse, desde muito pequeno, que deveria trilhar meus caminhos solitariamente, seguir estradas, cruzar pontes… A voz de minha mãe me batia pelo ouvido adentro: -se não tivesse oceis eu vortava pa casa do meu pai!!! Eu, pequenino, virava meus olhos espantados para o alto para ver sua cara de ódio de tudo. Não compreendia nada, mas sabia que deveria, sozinho, buscar um canto para entoar uma melodia pelas estradas, pelos sonhos…

Pela janela do ônibus o sol rompeu o cinza e entrou forte; minha pele sentiu. Olhei para fora e uma menininha de olhos azul céu me contemplava curiosa, sentada na cadeirinha do carro. Quem seria aquele mascarado? Meus olhos disseram olá e ela acenou-me com a mãozinha: – oi! Levantei a mão e respondi: – oi! Ela continuou a dizer ois em alguns segundos à espera do sinal verde. Ela desapareceu e continuei a olhar pela janela pessoanamente: janelas das casas, hotéis, ônibus, automóveis entre milhões do mundo que ninguém sabe o que é. E soubessem o que é, o que saberiam? Dão para mistérios de ruas cruzadas constantemente por gente, para ruas inacessíveis a todos os pensamentos, reais, impossivelmente reais, certas, desconhecidamente certas, com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 

Sorri com a voz do Tom na noite anterior: boa noite tio, beijos. Sorri novamente com a voz do Carlo naquela manhã: bom dia padrinho, tá bem? Sempre as crianças…

Eu estava numa Ilha e precisava sair dela para ver além de mim, do(s) outro(s). Aquela mãozinha acenando era um adeus, tchau, good bye, au revoir, farwell. Eu deveria sair da Ilha, voltar para minha casa, pois as plantas/flores cuidariam de mim outra vez. Outra vez a voz de minha mãe: eu num vevo sem pranta, sem fulori. Sim, tinha que voltar urgente. O sorriso da Luana também me esperava. 

Moacir Lopes de Camargos. Doutor em Linguística, Prof. do Curso de Línguas Adicionais, Unipampa, Campus Bagé, RS. email: moacir.camargos@unipampa.edu.br

Comentários

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Junipampa