Dom Casmurro: passeio guiado com tudo que tem direito, inclusive Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu…

Por Adriano de Souza

Eu queria fazer deste texto, caro/a leitor/a, um convite. Pegue Dom Casmurro, de Machado de Assis, e leia ou releia, se for o caso. Se você ficou com alguma má impressão da obra, seja porque ela lhe foi apresentada às pressas em alguma experiência escolar malsucedida, seja por qualquer outro motivo, permita-se outra chance. Faz isso, vai… Nunca te pedi nada…

Bom, farei a minha parte: separei algumas passagens da obra, as quais apresento seguidas de alguns poucos comentários. Faço isso porque acredito que essas passagens, por si, já são um convite para emaranhar-se na trama narrativa do casmurro Bentinho. Ao fim deste texto, ficamos combinados, se você que me lê não se sentir sensibilizado/a a abrir o livro, prometo não voltar mais ao assunto.

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Ilustração do clássico literário “Dom Casmurro” por Arthur de Souza Freitas, Bárbara Luana de Oliveira Barbalho, Felipe Antonio de Melo e Maria Stella Galvão Santos. Disponível em http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2014/expocom/EX42-0945-1.pdf. Acesso: 19/05/2021.

a) Bento, Bentinho…

Todos os episódios de que a obra dá conta nos são apresentados desde o ponto de vista de Bentinho. Assim sendo, é muito interessante pensar sobre como o próprio Bento Santiago se apresenta na obra, até para sabermos quem é esse cara que está nos contando tantas coisas, vejamos duas passagens sobre isso:

– No capítulo XXXI, Bentinho está apresentando Capitu, mas, ao fazê-lo, acaba se definindo em comparação a ela: “Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não disse, aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição.” (grifos acrescentados, p. 487-488).

O que é ser “mais mulher” ou o que é ser “menos homem” é algo beeeeem discutível. Mas o fato é que podemos inferir, por mais vaga que seja, que temos aqui uma noção de masculinidade. Na verdade, temos aqui, segundo Bento, duas categorias: A) ser mulher e B) ser homem. Ainda segundo Bentinho, Capitu pertencia fortemente à categoria ‘A’ e ele, Bento, pertencia à categoria ‘B’, mas num grau de pertencimento menor ao de Capitu. Ora veja… daria pra dizer, então, que Bentinho era um cara que se via – quando se comparava a Capitu – como alguém menor dentro de sua própria categoria social de gênero? Fato é que, em toda obra, o ciúme doentio de Bento é sempre uma constante. Falaremos disso mais adiante. 

– No capítulo XIV, Bentinho está narrando um episódio fundamental de sua descoberta amorosa. Trata-se de quando, adolescentes, Bento surpreende Capitu a riscar no muro de casa os nomes do casal. Bonito, comovente, adolescente. Capitu tenta esconder de Bento o que estava fazendo, mas ele consegue ler antes que ela apague, passando então a refletir, anos depois do episódio: “sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.” (grifos acrescentados, p. 462-463). Acho que não precisa comentar nada, né…

b) Os olhos de Capitu…

Eu acho que Capitolina tem, seguramente, os olhos mais badalados e comentados da literatura brasileira. Em Dom Casmurro há, digamos, duas tendências de apreciação dos olhos de Capitu. Uma mais conservadora e moralista, a de José Dias, o agregado da família de Bentinho. E outra menos conservadora, talvez mais sensual, que é a definição de Bentinho, mas ambas as visões se complementam na construção da personagem Capitu, que, como sabemos, é sempre vista desde o ponto de vista do outro, no caso, o homem. Vejamos esses dois olhares:

– No capítulo XXV, o agregado, num de seus arroubos aristocráticos, larga essa: “A gente Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu… Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada (…)” (p. 478). É importante dizer que essa fala ocorre dentro de um contexto em que José Dias está fazendo uma avaliação da condição social da família de Capitu, portanto, a fala tem um caráter classista. Em outras palavras, a fala é bem preconceituosa, José Dias está lidando para tentar convencer Bentinho que “a gente Pádua” não são pessoas de sua classe social e que, portanto, não “pega bem” Bento ser visto com eles a toda hora. Portanto – e acho até que pouco se fala disso – essa avaliação de José Dias acerca dos olhos “de cigana oblíqua e dissimulada” de Capitu assume, dentro do contexto do capítulo, uma dimensão valorativa acerca da condição social da personagem, que também é atravessada, claro, pela questão de gênero.

– Já no Capítulo XXXII, é Bentinho quem passa à apreciação dos olhos. O trecho é um pouco extenso, mas é primoroso pra o nosso intento, vamos a ele: “Deixe ver os olhos, Capitu. Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que… Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.” (grifos acrescentados, p. 490-491).

Esse trecho é extraordinário por vários motivos, a gente fica se perguntando: que reações físicas, psíquicas e/ou (por que não?) fisiológicas esses olhos provocaram em Bentinho, a tal ponto de ele se sentir incapaz de defini-lo sem que, ao dizê-lo, quebre “a dignidade do estilo” do relato…

Na falta de melhor definição ele opta por “olhos de ressaca” e passa a explorar uma série de metáforas marítimas muito interessantes, mormente (beleza de advérbio machadiano, hein!?), mormente por dois motivos: primeiro, a ressaca dos olhos de Capitu, essa característica de movimento intenso e agitado de ondas, vai ter tudo a ver com o desfecho de Escobar. Segundo, Bentinho, aqui, age como Ulisses – personagem da Odisseia de Homero, que teve de ser amarrado ao barco para não ser tragado pelo mar, inebriado que estava pelo canto das sereias: “Para não ser arrastado [mar adentro], agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros”.

c) Ciúme, ciúmes….

Dom Casmurro é também um ensaio sobre a questão do ciúme, um dos grandes temas da obra. Lido nesse sentido, o livro adquire uma dimensão mais trágica, dialogando com o drama shakespeariano, especificamente Otelo (há um capítulo com esse nome inclusive). Em D. Casmurro, Bentinho se vê envolto em confabulações, comparando a peça em que Desdêmona morre (na verdade, é morta asfixiada por Otelo) com a possível morte de Capitu. Percebe-se, com efeito, o quão perturbado se torna Bentinho pelo ciúme doentio, cogitando (e eventualmente, planejando) o suicídio, a morte do filho e o assassinato da esposa. Em outras palavras – e para não naturalizar o feminicídio que quase é posto em prática por Bentinho –, temos aqui vários elementos do que hoje conhecemos como uma relação tipicamente abusiva. Aspectos disso em:

Da cama ouvi a voz dela, que viera passar o resto da tarde com minha mãe, e naturalmente comigo, como das outras vezes; mas, por maior que fosse o abalo que me deu, não me fez sair do quarto. Capitu ria alto, falava alto, como se me avisasse; eu continuava surdo, a sós comigo e o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue…” (p. 552).

Não a matei [aqui, Bentinho se refere à prima Justina, que havia insinuado que Capitu ficara na casa da amiga Sancha, em função de algum possível namorado.] por não ter à mão ferro nem corda, pistola nem punhal; mas os olhos que lhe deitei, se pudessem matar, teriam suprido tudo. Um dos erros da Providência foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes, como armas de ataque, e as pernas como armas de fuga ou de defesa. Os olhos bastavam ao primeiro efeito. Um mover deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival, exerceriam vingança pronta, com este acréscimo que, para desnortear a justiça, os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos, e correriam a chorar a vítima. Prima Justina escapou aos meus; eu é que não escapei ao efeito da insinuação, e no domingo, às onze horas, corri à Rua dos Inválidos. (p. 560)

Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi pé ante pé, e meti-me no gabinete, iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em mangas de camisa, e escrevi ainda uma carta, a última, dirigida a Capitu. Nenhuma das outras era para ela; senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. (…).”(p. 624).

Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu jurava matá-los a ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada. Quando, porém, tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava, ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro.” (p. 620).

d) E, afinal, Escobar traiu ou não traiu Bentinho…?

Essa pergunta, a faço só para chatear mesmo. Tendo sempre ouvido a tal questão sobre a suposta infidelidade de Capitu, desta vez me ocorreu inverter as coisas. Se houve mesmo traição, por que não dar a César o que é de César? Afinal, Bentinho e Escobar eram super amigos, havia nessa relação uma admiração mútua, confiança recíproca, broderage mesmo. De mais a mais, textualmente, sabemos que Escobar é que era dado a aventuras extraconjugais… E isso é o próprio Bentinho que diz: 

Escobar e a mulher viviam felizes; tinham uma filhinha. Em tempo ouvi falar de uma aventura do marido, negócio de teatro, não sei que atriz ou bailarina, mas se foi certo, não deu escândalo. Sancha era modesta, o marido trabalhador.” (p. 588).

e) Por fim, um pouco de filosofia machadiana

Em nossas incursões pela obra de Machado de Assis, temos, eventualmente, comentado seu caráter reflexivo e filosófico acerca da natureza humana. Muito se tem dito que essa filosofia é parte de uma perspectiva cética do mundo e da existência. De fato, há um ceticismo e uma indiferença latente aqui também. Bentinho (assim como Brás Cubas, Rubião, o conselheiro Aires, por exemplo) não parece interessado na saída pela via da transcendência, seja ela mística, sentimental ou de qualquer outra natureza. Por mais paradoxal, talvez a única transcendência possível aqui seja pela via de um racionalismo onírico:

Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.

— Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos. 

Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído. (capítulo XVII – “Os vermes”, do romance Dom Casmurro de Machado de Assis, p. 467).”

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Página da HQ “Dom Casmurro”, baseada na obra de Machado de Assis. Disponível em https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2012/05/29/dom-casmurro-de-machado-de-assis-ganha-nova-versao-em-hq-veja-outras-adaptacoes.htm. Acesso: 19/05/2021.

Caso tenha chegado até aqui, digníssimo/a leitor/a, creio que não há mais nada a fazer a não ser correr para o livro. Dom Casmurro é companhia para muita conversa. É daqueles que a gente tem que ler e, vez que outra, ler de novo, porque parece estar sempre se reescrevendo.

E como eu queria ter uma frase de efeito inteligentemente pensada para encerrar esse textão-convite. Sonâmbulo, fui gastando todas as que tinha ao longo dos últimos dias, em conversas mudas travadas com o travesseiro, de maneira que não me resta nada mais a dizer que seja meu. Vamos à História dos Subúrbios. FIM.

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. In.: ASSIS, Machado de. Todos os romances e contos consagrados: volume 2. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. [1889]. 

Adriano de Souza, no mundo, é só mais um. Em seu país, não é mais do que ninguém. No Rio Grande do Sul, nasce a cada mês de julho. A Santa Maria volta sempre que precisa se reencontrar. Em Camobi, amarelou seus verdes anos. Em Bagé faz análise. Em casa, pelas cordas do violão, vai tocando a vida, às vezes desafina, outras não.

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