De como a “liberdade” sexual me levou a perda de Identidade

Autor: Monica Carolina

Desde os treze anos de idade me considero feminista. Queror em evidência a idade que entrei em contato com esse tema, pois se não fossem as lembranças de cada dia do nosso amado (ou não) Facebook, eu nem lembraria que comecei a pensar sobre questões como essa, tão cedo, ainda mais levando em conta que nem era um assunto tão discutido na época, assim como é hoje. E, devo agradecer a minha tia, que me expôs a isso, assim como me expôs a outros milhares de assuntos e ideias que foram/são de extrema importância para minha construção como humana.

Como feminista que sou (não creio que deixo de ser algo apenas por divergir em alguns pontos de um movimento), sempre considerei errada a desigualdade salarial entre homens e mulheres e sempre me deixou extremamente indignada o fato de que os homens sempre podem fazer o que consideram melhor, tanto nas relações sociais como em suas vidas sexuais, sem serem perseguidos e/ou julgados (não que eu creia que eles devam ser punidos por suas atitudes {não essas, ao menos}, o ponto é: Por que apenas eles possuem esse direito e por que eles os privam das mulheres?). Sempre considerei imperdoáveis os constantes estupros e agressões físicas e psicológicas que muitos homens submetem às suas parceiras (embora tenha a plena consciência que relacionamentos abusivos possam ocorrer de ambas as partes, sei que homens que passam por isso é mais exceção do que regra {quantas mulheres foram estupradas hoje?}). Entristeço-me ao perceber que as mulheres não podem decidir sobre seus próprios corpos, como no caso do aborto, que continua sendo proibido no Brasil (país onde a maioria é contra, acha o país uma bosta e deseja se mudar para outro local, local esse em que o aborto é comumente permitido, mas enfim…). Sobretudo me repugna o fato da mulher ser vista como um mero objeto sexual nas distintas mídias que temos contato.

Segundo BELMIRO et al (2015): “A objetificação, termo cunhado no início dos anos 70, consiste em analisar um indivíduo a nível de objeto, sem considerar seu emocional ou psicológico”… Desde que me entendo por gente fui objetificada por outros, mulheres e homens. Me recordo com  nitidez da minha querida avó falando dos exercícios físicos que eu deveria ou não praticar quando decidi começar a fazer natação… “Natação, Carolina? Só vai ficar com os ombros mais largos e isso é ridículo em mocinhas, ainda mais você que tem as pernas tão fininhas. Sua prima sim, ela faz vôlei, tem um corpo incrível, mas aquele corpo realmente não é pra qualquer uma…”. Haaa, vó! Não consigo ficar nem um pouco triste hoje com isso, a senhora foi ensinada assim e é provável que nunca mude sua forma de pensar, você nunca vai saber que, falando esse tipo de coisa, você acaba estereotipando o que é uma mulher ou não e a reduzindo a apenas isso, mas confesso que, na época, me tranquei no quarto, coloquei System of a Down, chorei por dez minutos e decidi “Ok, vou ir para a academia e ser gostosa”. Fiquei na academia por um mês, quando descobri meu fracasso total em “ser gostosa”. Na época eu tinha meus 14 anos e tudo que eu queria era ficar em meu quarto jogando algo online e lendo os livros da Lygia Fagundes Telles. Também me recordo perfeitamente do primeiro abuso sexual que sofri, tinha apenas nove anos quando um amigo que ia em casa brincar comigo todos os dias decidiu colocar a mão entre minhas pernas e dizer que eu já era grande o bastante para isso e depois colocar seu  pênis em minha boca, gozar na minha cara e pedir que eu não contasse para ninguém: “É segredo nosso, viu? Somos amigos”. Com 9 anos não se entende muita coisa: A culpa tinha sido toda minha e fiquei morta de medo de apanhar se alguém descobrisse.

Vocês estão entendendo onde quero chegar? Sempre meu intelecto e meu emocional ficaram em segundo plano, mesmo quando fiquei com depressão (“Assim você vai engordar, heim?”) e em certo ponto da minha jornada eu realmente estive farta de tudo isso. Queria que as pessoas se fodessem, fossem pra longe, não falassem, não dessem dicas de como eu deveria ser, ou melhor, deixar de ser. Queria parar de sofrer bullying por ser a “CDF” ao invés de ser a menina linda de olhos claros e cabelo liso e foi mais ou menos nessa época, que eu chamo de “A Revolta”, que li algo sobre a liberdade sexual da mulher: Que como mulheres não deveríamos nos importar com o julgamento do outro, que deveríamos apenas fazer o que tivéssemos vontade, que não deveríamos nos importar de sermos taxadas de puta, que o que realmente deveria ser levado em consideração seria estar de bem com nós  mesmas e, acima de tudo, que eu deveria ser dona do meu próprio corpo: Não deveria aceitar que me dissessem o que fazer, não deveria tolerar abusos de nenhum tipo, não deveria aceitar ser mais um objeto, eu deveria apenas buscar meu próprio prazer… Mero engano, pois o que eu não sabia, naquela época, é que ao invés de não permitir que me objetificassem, terminei por deixar outros fazerem isso sem levarem culpa alguma, porque agora também estava me objetificando. Eu não era a garota livre que tinha terminado um relacionamento abusivo e que queria curtir a vida, ter sexo casual (porque é difícil demais ter uma relação)? Eu não queria experimentar, ter prazer? Pois é, parece que fui dominada novamente, por inocência minha, talvez. Eu não sabia, por exemplo, que transar com pessoas, que não significavam nada de nada para mim, iria me fazer mais triste, porque eu era uma mulher livre e tinham me feito sofrer. Eu não sabia o vazio que iria ficar após cada transa, quando eu pensava que também poderia conversar e dar minhas opiniões, mas o cara não queria nem saber, porque já havia gozado e eu, obviamente, servia apenas para isso. Me coloquei nessa situação pensando que seria livre e nunca na minha vida fui tão presa.

“Quem sou eu?” Essa é uma pergunta que vem sido feita com frequência. Nessa de ser livre sexualmente, me senti tão abusada, quanto naquela situação relatada dos meus 9 anos. Além de ter me sentido completamente usada, me senti culpada, porque foi algo consentido, porque pensei que era sobre liberdade, porque plantaram na minha cabeça que uma mulher pode fazer sexo com mil homens e ser dona de si, segura, incrível, superior. Não, não é assim, você chega a um ponto em que não sabe qual é mais o motivo; o termo “liberdade” já foi perdido, esquecido e então você começa apenas a reproduzir algo que uma vez te disseram que iria te fazer bem. Não vou dizer que não existam mulheres livres sexualmente, mas posso dizer (pelo que venho discutindo com outras mulheres sobre) que são raros os casos. Talvez eu possa ser livre em relação a isso um dia, mas tenho que ter em mente, que sempre a moral estabelecida pela sociedade estará de algum modo internalizado em mim, e que, talvez, mesmo tentando a desconstrução daquilo que não concordo ao que se trata de moral e princípios, seja impossível para mim desconciliar. Os olhos da sociedade estão sobre nós, mulheres, o tempo todo e, querendo ou não, ele nos afeta e muito.

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