A metrópole e Georg Simmel

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                                                                                                                     Por: Eduarda Paz Trindade

A priori, para o sociólogo alemão, Georg Simmel, a vida na cidade pequena é marcada por um ritmo lento de vida, onde as imagens mentais, fluem de maneira vagarosa, e é, então, possível verificar uma constante uniformidade lenta nos acontecimentos, até uma criação de hábitos, já que essas impressões transpassam a mente e se alocam na profundidade da alma. Neste caminho, o psiquismo, daquele que vive e reside em cidade pequena, descansa sobre os relacionamentos profundos, sentimentais e emocionais com o ambiente.

Entretanto, a vida na cidade grande é caracterizada, na intensificação dos estímulos nervosos, num virar de uma esquina, num simples atravessar de rua ou no inteligível ato de olhar pela janela de um apartamento, localizado no centro da cidade, somos bombardeados por impressões novas, diferentes e rápidas. Não há tempo de aprofundamentos em certas imagens e ou em determinadas impressões. As transformações acontecem muito frequentemente, há uma consciência diferente, no morador de metrópole. Nele, o intelecto é o local onde essas impressões velozes irão se alojar, não mais na alma.

Em suma, o sociólogo alemão Georg Simmel constata, que a metrópole sempre foi o local da economia monetária, por sua vez, o dinheiro é o regente das relações realizadas na esfera econômica. Ele corrói fatalmente o núcleo das coisas, sua peculiaridade, seu valor específico, sua incomparabilidade; concentrando todas as características, as singularidades, os coloridos, em apenas uma sentença, quando tudo é resumido no valor, mas não no valor pautado no sentimento e em relações emocionais. Dessa forma, as trocas efetuadas a partir do dinheiro afirmam a individualidade, ou melhor, a intencionalidade surgida com a cidade grande.

Além disso, essas relações de troca, nas metrópoles, não são transpassadas por emoções, ao contrário de uma cidade pequena em que as possíveis relações, entre fornecedor e freguês, podem intercambiar pessoalidade e economia. Visto que o cliente que encomenda a mercadoria, troca calculando, utilizando a razão com objetivos certeiros; onde é o mercado que resume a função de fornecer e adquirir os produtos que são produzidos. Há uma impessoalidade no trato dessas relações, dado que nenhuma das partes são próximas ou conhecidas. Por exemplo, os fregueses são completamente desconhecidos e nunca se encontrarão ou terão conhecimento com os verdadeiros produtores das mercadorias, que estão adquirindo.

“Talvez não haja nenhum fenômeno anímico que seja reservado de modo tão incondicional à cidade grande como o caráter blasé” (SIMMEL, 2005, p. 5). Em suma, o caráter blasé é a disposição para agir. Esta atitude pode ser assemelhada a uma tonalidade acinzentada, onde a capacidade de distinção não é possível. Devido a um constante estímulo dos nervos, frente às rápidas mudanças, eles são jogados de um extremo a outro, de reações fortes e até reações fracas a todo momento, fazendo com que as energias sejam gastas neste processo. Não restando suficiente para uma reação convenientemente frente aos estímulos, o cidadão de cidade grande é forçado a responder às mais variadas impressões, antagonismos próprios dessa vida citadina, com isso as forças dos nervos se esgotam.

Portanto, a cultura da metrópole é caracterizada por um desenvolvimento da cultura objetiva, ou seja, o espírito objetivo ao invés da cultura individual ou o espírito subjetivo. Nesse processo, cada vez mais o indivíduo é esvaziado de suas particularidades, colorações próprias e especificidades; em prol de um desenvolvimento das coisas. A única maneira de se sobressair, em meio a essa uniformidade nas condições desses moradores é a extravagância e o exagero. Nesse caso, há uma exclusividade, particularização, porém radical e exagerada. Por exemplo, o sucesso da plataforma Youtube, pode ser explicado por esse conceito. Nessa plataforma, os indivíduos publicam seus vídeos fazendo as coisas mais extravagantes possíveis, seja fazendo um diário em formato de vídeo, seja gravando suas opiniões particulares sobre a política, um programa de televisão ou um livro, por exemplo; as extravagâncias estão postas nessa plataforma.

Com isso, para Simmel, a função das metrópoles é fornecer o lugar para o conflito e para as tentativas de unificação. O conflito irá surgir como consequência de elementos que separam a sociedade, como os sentimentos negativos e as necessidades. Assim sendo, o conflito não é anormal e nem a negação da sociedade, mas é a natureza de sua estruturação; uma vez que a sociedade possui certa carência de formação de grupos e de disputas, e o conflito passa a ser uma forma regularizadora e estruturadora desses grupos e formas sociais. Afinal, para Simmel, a vida social é um movimento imutável na sua transformação das relações entre os indivíduos.

 

Eduarda Paz Trindade, é acadêmica de Ciências Sociais (Bacharelado) – UFSM. Participa do projeto Reconfigurações no Sindicalismo e Trabalho Rural (UFSM), integra o Núcleo de Estudo e Extensão em Desenvolvimento Territorial e Territorialidades (NEDET – UFSM), atuando também como produtora de conteúdo no Jornal Universitário do Pampa (JUNIPAMPA). Além disso, foi estagiária do XVII Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV), de Santa Maria. Dentre as suas paixões, estão as áreas de pesquisa sobre movimentos sociais, estudos feministas, agricultura familiar, gênero, trabalho, políticas públicas e sindicalismo.

 

 

 

Referência Bibliográfica

 

SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. Mana. Vol.11, n° 2, 2005.

 

SIMMEL, Georg. A natureza sociológica do conflito, pp.122-134; A competição,

pp.135-149; conflito e estrutura do grupo, pp.150-164.In: MORAES FILHO, Evaristo

de (Org.). Georg Simmel: sociologia. São Paulo: Ática, 1985.

 

SIMMEL, Georg. O dinheiro na cultura moderna. In: SOUZA, Jessé & OËLZE, Berthold (Orgs.). Simmel e Modernidade. Brasília: Ed. UnB, 1998.

 

VANDENBERGUE, Frédéric. As sociologias de Georg Simmel. Bauru: Edusc, 2005.

 

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