A JANTA DE SARA: CORES, SABORES E TEMORES

Autor: Bárbara Alves Branco Machado

Ela se dirigia sem pressa até a mesa de jantar. Era por volta de 18 horas da tarde, ou noite como costumam falar aqueles que não associam noite à escuridão total, mas sim à escuridão parcial ou a um modelo de horário que denota que a partir das 18 horas começa a noite. Ainda estava claro, mas já era hora do jantar, ou melhor, era hora da famigerada sopa de miojo, o que não pode ser considerado jantar, talvez nem sequer pode ser considerado comida.

Sara não estava com fome. Em realidade, estava com uma mistura de sono e tédio, mas era hora do jantar. Realizava as refeições na cozinha/sala de assistir TV/refeitório. Jantava em meio aos avós que não jantavam mais porque o “doutor” falou que jantar depois de certa idade faz mal à saúde. Mas comiam goiabada com leite para o estômago não ficar vazio por toda noite, pois, caso ficasse, o chimarrão matutino poderia fazer mal tanto física quanto psicologicamente aos velhinhos. Enquanto eles comiam a “sobremesa” em forma de refeição, assistiam a uma novela em uma daquelas televisões antigas, de tubo, que mais chiava do que falava. O som era praticamente inaudível. Sara gostava de não ouvir, embora o chiado a irritasse como quase qualquer coisa que tenta lhe transmitir uma mensagem. Os avós que já não escutavam mais nada audível, quiçá inaudível, também não gostavam, no entanto, a imagem do aparelho não era das piores.

Ela sentava à mesa e encarava o prato de miojo na sua frente: um emaranhado meio branco, meio amarelo com riscos de algum tempero que vinha no pacote de miojo e que deveria ter gosto artificial de salsa, alecrim ou sabe-se lá de quantas ervas se consegue extrair gosto artificial e enfiar o mesmo ilusoriamente em um pacote de miojo. O aspecto da sopa era nauseante. Sara pensou em desistir daquele amarelado aguado que chamavam de jantar. Porém, agora percebia que não necessariamente estava sem fome como pensava antes de entrar em conflito com aquele prato. Estava com algum princípio de fome, mas sua fome definitivamente não era de sopa de miojo. Pensou mais um pouco e decidiu comer. Era melhor comer agora a sopa, pois mais tarde outras pessoas sentariam naquela mesma mesa e provavelmente a sopa acabasse em alguns minutos. Ela ficaria com fome por toda a noite e teria que recorrer à geladeira pela madrugada, que tinha coisas bem piores que sopa de miojo. Pensando no pior, comeu o menos pior. Ensaiou a primeira tímida colherada e levou à boca. Tinha gosto de… miojo, que tinha gosto de algo inexplicável ou, talvez, não tivesse gosto de nada! Continuou as colheradas querendo que acabasse logo. A avó se aproximou da mesa com um pirex contendo um ovo pingando água acinzentada.

– Sara, eu cozinhei um ovo pra ti, disse a avó.

Ela recebeu o ovo com alguma animação e disse um obrigada tão inaudível quanto o áudio da televisão ligada.

O prato de sopa já estava com poucos ‘pedaços’ de miojo. Tinha mais sopa do que miojo agora. Ela retirou o ovo do pirex, abriu o mesmo no meio, deixou o mundo mais amarelo, a mais repulsiva das cores que estava em todas as partes de sua refeição diária. A garota encarou o ovo por alguns minutos e pensou: “se esse ovo fosse chocado, nasceria uma galinha. Se essa galinha nascesse, dava para fazer churrasco ou ao menos assar e comer com miojo…” E começou a comer o ovo rapidamente… no prato restava um caldo amarelado. Ela pegou uma colher e começou a tomar o tal caldo em seu último ato na mesa de jantar daquela noite. Tinha sabor de vários sabores.

 

Este é um fruto da Oficina de Crônica, ofertada pelo LAB- Laboratório de Leitura e Produção Textual em parceria com a oficineira Viviane Geribone.

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