A GENTE FALA BEM ou NÓS FALAMOS BEM? Tanto faz – o centro é o direito à expressão

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Por Susane Andrade Rodrigues

A língua que usamos não é território demarcado, nem é possível prever o que será dela daqui a alguns tempos. No entanto, é possível prever hipóteses sobre os caminhos de possíveis mudanças linguísticas. Porém, existe, e é imperativo dizer isso, forças “invisíveis” que tentam controlar esse fato, num intento de tapar o sol com a peneira ou tentar conter as águas de um oceano. Essas forças são a tentativa de uma sistematização regida pelo nome da Gramática Normativa. Essa não acompanha a vivacidade da língua, mas rememora passados, é nostálgica – sempre saudosa. Aqueles que não usam a língua conforme regras de “etiqueta” sofrem preconceito, um preconceito aceito e que não é velado. Não é permitido utilizar termos e expressões inadequadas ao que a Gramática Normativa prega; se o faz logo vira motivo de chacota, exclusão e que é divulgado para que mais e mais pessoas possam achar graça da expressão daquela pessoa que não possui o direito desta, já que seu “conhecimento linguístico” é errado. Será que a nossa linguagem tem apenas uma forma, uma maneira de ser, uma verdade única e absoluta? Uma grande abominação! Ora, a língua muda a todo instante, ou será que alguém que viesse do passado, imaginemos uns cem anos atrás, não se assustaria com nossa forma de falar, considerando-a errada? Pensaria ele: estão matando a minha língua? No que ela se transformou?

Fato é que, há algum tempo A GENTE era uma expressão como substantivo. Na atualidade e no uso constante da língua, acabou virando termo com valor de pronome utilizado para se referir a uma primeira pessoa do plural, com significado, portanto, equivalente ao de “nós”. É muito usado: talvez não tanto na escrita mais formal, mas, pela forma em que está sendo conduzida, logo estará inseparável em nossos registros grafônicos. E já o NÓS e suas terminações, embora metódico e correto conforme leis gramaticais, cai, pouco a pouco em desuso, notavelmente em práticas de interação oral na fala das novas gerações que já não vivem em contextos onde o NÓS tenha centralidade.

Visto que é um fato o que tem ocorrido, será que nossas gramáticas visualizam este acontecimento? Até o momento não vi. Os pronomes pessoais lá estão: EU, TU, ELE, NÓS, VÓS, ELES. Aí questiono a você, caro leitor: quem usa VÓS nos contextos atuais? É verídico que são menos indivíduos do que os utilizam A GENTE.

Percebo que, pouco a pouco, há necessidade de mudança de paradigmas, algo como uma adaptação ao ambiente. Tal sentença fez-me pensar na natureza e toda a questão da seleção natural estudada por Darwin: sobrevivem aqueles que melhor se adaptam ao seu meio, aqueles que se moldam às características necessárias e penso: a língua garante sua vastidão através desta perspectiva e… a gramática? Vive um contexto idealista de algo que já não cabe mais? Buscar punir e criticar aqueles que se expressam no horizonte vasto da linguagem é apenas valorizar a falta de riqueza proveniente dos inúmeros saberes. E que as instituições vejam de forma mais crítica e reflexiva o que fazem ao impedir a livre expressão…

Por: Susane Andrade Rodrigues – Mestranda em Ensino de Línguas da Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA.

 

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