A ANGÚSTIA DE OLHAR PARA O FUTURO

Por Guilherme Henrique Paro

Denilson Baniwa, Bye, bye Brazil, acrílica sobre tela, 2020

Já não é mais novidade ouvirmos dizer que estamos enfrentando a maior crise ambiental que a espécie humana já vivenciou. Lemos nos jornais, ouvimos nos noticiários, e até em campanhas publicitárias de todos os tipos, e há um bom tempo, que as condições climáticas para a permanência do homem na terra encaminha-se, em um ritmo acelerado, para o inóspito.

Sou de uma geração que cresceu tendo em sala de aula a presença de temas como “a importância de se preservar o nosso planeta”, “dicas essenciais para economizar água”, “S.O.S. Amazônia” e muitos outros. Todos eles voltados para práticas coletivas que visavam frear ou acabar com o efeito estufa, o desmatamento de florestas e a preservação de nossos ecossistemas. Presenciei a popularização de ONGs internacionais e nacionais por meio de suas campanhas aqui no país, e o surgimento de demandas políticas em prol de debater o futuro ecológico mundial. Porém, dos anos 90 para cá, muita coisa mudou, e o mundo e as pessoas estão diferentes, mas, mesmo assim, pouca coisa foi feita de maneira efetiva com o intuito de reverter ou enfraquecer o movimento destrutivo que o homem causou e ainda causa ao Planeta Terra.

Hoje sabemos que a negligência coletiva resultou na impossibilidade de haver uma reversão dos danos causados pelo homem ao planeta, mudando a utopia do ativismo ambiental que, em um passado muito recente, alertava sobre um possível futuro caótico, e que agora, alerta sobre a importância de se construir um futuro “menos” caótico para as futuras gerações, afinal, o futuro caótico previsto por eles, já virou presente. O agora é a soma da crise econômica que entra em uma constante recessão e ameaça o mercado financeiro gerando um colapso, que revela, mais uma vez, o aumento da desigualdade social (o rico cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre); o abalo das democracias em virtude da disparidade ideológica perversa que não dialoga, e sim ameaça à diversidade, resultando na polarização da população; e ainda a pandemia de Covid-19, a qual seguimos enfrentando e que, particularmente, mostrou ao homem a angústia que é passar por mudanças as quais ele ainda nem sabe quais são ao certo (climática, social, financeira, existencial) – talvez o resultado eminente da soma de atos do passado -, mas que já as sofrem.

Ao longo da história, o ser humano assumiu uma postura separatista ao ambiente natural em que vive, assumindo uma posição de superioridade e poder, isso influenciou na forma com que lidamos com tudo à nossa volta. A exploração excessiva de recursos minerais, a extinção de animais por conta de caças irregulares, o desmatamento desenfreado das florestas, a proliferação de poluentes químicos em rios, mares e atmosfera, sem mencionar nas formas de tratamento interpessoal que foram pautadas também por essa posição de poder (homem > tudo/todos). Por isso é bem comum hoje, ao interpretarmos manchetes, como, por exemplo: “Enfrentamos a pior crise ecológica mundial”, é difícil identificar facilmente que a crise ambiental, na verdade, é uma ameaça direta para a espécie humana, não para o Planeta Terra, em suas condições naturais atuais. Geólogos e antropólogos já nos mostraram que a Terra enfrentou milhares de “crises ambientais” ao longo de seus bilhões de anos, mas para o homem, nessas condições, será a primeira vez que virá a presenciar.

Diante do agora, tem sido cada vez mais difícil imaginar um futuro. Em entrevista cedida ao cineasta brasileiro Fernando Meirelles, para o Trip Transformadores na TV Cultura, o líder indígena Ailton Krenak ouviu dizer que “nenhum povo é capaz de interpretar o tempo em que vive”. A angústia de não saber identificar as mudanças que estão ocorrendo, mas senti-las, posiciona o homem em um estado de reflexão. Nesse estado, ocorre, muitas vezes, o impulso de olhar para trás, de identificar na história, na memória, uma explicação ou o indício de algum caminho que possa ser trilhado para ocorrer uma possível transformação de forma positiva.

A busca pela ancestralidade, através dos pensamentos e costumes dos povos nativos, mostra que precisamos de uma conexão com a natureza para defender o nosso futuro, seja ele qual for, afinal, sem essa conexão com a natureza não é possível compreender a dimensão da crise presente.

Talvez, as nossas “soluções”, até o momento, não tenham funcionado, e que talvez, seja exatamente nesse estado de angústia que a incerteza das mudanças possam nos impulsionar para uma transformação coletiva positiva. Ailton Krenak, na entrevista, ainda comenta que: “Sair da caixinha, na verdade, é porque a caixinha se desmanchou, não tem mais caixinha.”, e talvez, seja esse rompimento das perspectivas que possam nos revelar novos horizontes. Será necessário desconstruir ou mesmo romper com a ideia de ser humano a qual temos hoje, o ser superior, para que possamos ter um futuro, pois transformar o mundo requer nos transformar primeiro.

Guilherme Henrique Paro: Acadêmico do curso de Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Pampa campus Bagé. Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET) e voluntário no Núcleo de Formação do Leitor Literário (NULI).

“Esta é a coluna do PET-Letras, Programa de Educação Tutorial do curso de Letras – Português e Literaturas de Língua Portuguesa, do campus Bagé. O programa, financiado pelo FNDE/MEC, visa fornecer aos seus bolsistas uma formação ampla que contemple não apenas uma formação acadêmica qualificada como também uma formação cidadã no sentido de formar sujeitos responsáveis por seu papel social na transformação da realidade nacional. Com essa filosofia é que o PET desenvolve projetos e ações nos eixos de pesquisa, ensino e extensão. Nessa coluna, você lerá textos produzidos pelos petianos que registram suas reflexões acerca de temas gerados e debatidos a partir das ações desenvolvidas pelo grupo. Esperamos que apreciem nossa coluna. Boa leitura”.

Comentários
  1. Christena Sapia

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