Por que não ler somente os clássicos

Há algum tempo, li um texto sobre a monocromática literatura brasileira contemporânea. Não é qualidade que lhe falta, mas sim diversidade. Como apontou a autora, Carol Almeida, nosso panorama literário é marcado por um “inegável protagonismo masculino-branco-classe-média-sudestino-heterossexual”.

Após a leitura, peguei em mãos meu exemplar de “Por que ler os clássicos”, escrito por Italo Calvino. Fazia tempo que não o revisitava e o fiz tão brevemente a ponto de nem sequer entrar em sua residência: trocamos algumas palavras da porta. Restringi-me a folhear seu índice. O livro possui 36 capítulos, um deles lhe dá título e os demais versam sobre obras e autores clássicos. Fazemos uma caminhada cronológica junto com o autor, tendo Homero como ponto de partida e escritores do século XX como destino final dessa jornada canônica. Basta um vislumbre no índice para se constatar que os 35 capítulos seguintes ao que nomeia o livro são a respeito de obras de escritores homens, em sua grande maioria europeus. Não há uma mulher entre três dezenas e meia de escritos célebres.

Será que os clássicos não nos dão a falsa impressão de que apenas homens brancos de regiões prósperas são capazes de fazer boa literatura? Sua hegemonia ao longo da história não faria com que desviássemos os olhos de tudo que destoa do perfil dominante de autoria? O fato de, ainda hoje, menos mulheres serem lidas, publicadas e premiadas em concursos literários sugere uma resposta afirmativa.

Em resumo, o contato exclusivo com o cânone nos priva de realidades muito diversas. O que não implica rejeitá-lo de todo, contudo é muito valioso imergir nos textos bem escritos por pessoas desviantes da norma autoral. A literatura é algo colorido por si só, o monocromático não deveria ter vez em suas páginas.

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