O corpo que é nosso

Ainda nesse fim de semana, entre algumas cervejas, conversava com algumas amigas sobre ideias para minha coluna, cuja temática será corpo e sexualidade. Rapidamente lembramos do caso da Louise, assassinada na última semana no campus da UnB. O assassino, ex namorado da vítima, não somente tirou a vida de uma menina de 20 anos, como também ateou fogo em seu rosto e vagina. Quando nos* deparamos com casos assim – o que infelizmente acontece quase diariamente – fica realmente muito difícil refletir e escrever sobre corpo. Enquanto estamos problematizando, desconstruindo, escrevendo “meu corpo, minhas regras” nos muros por aí, fazendo o possível e o impossível para mostrar às pessoas que nossos corpos não são públicos vem a vida e nos joga na cara que uma parcela significativa da população não têm os direitos básicos sobre seus corpos respeitados. E que mulheres são estupradas diariamente. E que mulheres são mutiladas diariamente. E que enquanto eu escrevo, mulheres estão sendo espancadas e assassinadas.

Como a gente sabe que desistir, se calar ou se dar por vencida não é realmente uma opção, seguimos. E como é começo de semana e começo de coluna, queria compartilhar com vocês uma coisa que tem restaurado um pouquinho minha fé na humanidade, nem que seja por uns breves momentos, até outro baque me atingir de novo. Acreditem se quiserem, essa coisa se chama facebook. Óbvio que eu não tô falando das eternas postagens PT ladrão, Bolsomito, sdds Ditadura.

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Essa imagem lindinha que vocês estão vendo aí é a capa do grupo “Do it yourself (Faça você mesma) das minas”*. E como tá ali escrito em rosa, é um lugar de amizade, empoderamento e dicas de como fazermos as coisas nós mesmas, seja deixar o cabelo azul ou consertar a moto que não quer pegar. Recentemente, porém, esse grupo vem adquirindo um novo caráter: as mulheres, identificando esse como um lugar seguro, se sentem a vontade para perguntar coisas que não têm liberdade para perguntar em outros ambientes. E assim criou-se uma rede de apoio entre mulheres, em que a cada dia centenas de relatos, histórias e perguntas são publicados e dezenas de outras mulheres que já passaram por situações similares podem compartilhar suas experiências e ajudar a mina que tá precisando. Lindo.

O que isso tem a ver com corpo e sexualidade? Tudo. Porque vivemos, afinal, em uma sociedade onde o corpo e o prazer feminino são tabus. Os espaços em que podemos nos abrir livremente, sentar e conversar sobre a loucura que é viver dentro de um corpo de mulher frequentemente se restringem a um consultório ginecológico e, muitas vezes nem isso, visto que não são raros os relatos sobre médicos que ridicularizam as dúvidas das pacientes. Então é claro que o DIY das minas se tornou um espaço para essas discussões.

SORORIDADE
Pode parecer pouco, pode parecer bobagem. Mas não é. A construção de espaços onde mulheres não sejam silenciadas e não tenham medo de compartilhar suas experiências promove auto conhecimento e ajuda no desenvolvimento da autoestima. Juntas nos tornamos mais fortes. Juntas nos tornamos empoderadas. Juntas recuperamos um direito que nos vem sido negado: falar de nós mesmas e dos nosso corpos. Nossos corpos são nossos e não objetos midiáticos. Nossos corpos importam. Nosso prazer importa. E eu espero que essa coluna seja mais uma ferramenta para nos ajudar a dizer isso ao mundo. :)

 

*Sempre que uso plural – nós ou a gente – me refiro à “nós mulheres” e não à “nós humanos”. Quando for o caso do segundo, vai ficar explícito no texto. 

**O “DIY das minas”, caso não tenha ficado claro, é um grupo auto-organizado no facebook, cujo acesso é restringido apenas à mulheres. Além dele, existem vários outros grupos com esse caráter, com o “Coletores Menstruais – Além da menstruação” e o “Percepção de fertilidade e contracepção natural”.

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