A primeira Parada LGBTQIA+ de Bagé completa 5 anos em 2021. Vamos relembrar?

 

Por Taiza da Hora Fonseca

Tempos atrás, em uma reunião de estudos do Programa de Educação Tutorial (PET) do curso de Letras da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), tive de estudar e dialogar sobre alguns conceitos da Análise do Discurso (AD). Nessa reunião em questão, falei especificamente sobre Historicidade e Memória Discursiva. E, enquanto pensava sobre esses dois importantes conceitos para a AD, refletia sobre como as palavras produzem sentido através do processo histórico e social, concordando, assim, com Courtine e Haroche (1994) quando afirmam que a linguagem é o tecido da memória. Foi, então, nesse contexto que pensei ser importante recordar e escrever sobre um momento muito significativo para a cidade de Bagé: a primeira Parada LGBTQIA+, que ocorreu no dia 24 de julho de 2016, e que, neste ano de 2021, completará 5 anos.

Pensando na pouca cobertura dada pela mídia hegemônica ao evento na época, eu, enquanto uma de suas organizadoras, achei necessário escrever sobre ele para relembrar sua potência e seu ineditismo. Dessa forma, busquei entrevistar alguns outros organizadores e participantes do evento para entender a importância que a primeira Parada LGBTQIA+ teve para a cidade de Bagé e, assim, construir o tecido da memória sobre esse momento.

O evento “Parada do Orgulho LGBTQIA+” ocorreu pela primeira vez em 2016 e teve, em sua divulgação, reivindicações para a garantia dos direitos civis da população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais de Bagé. O evento começou às 15h30min, na Praça Esporte da cidade, e contou com uma programação diversa com mesa de debate, roda de conversa, apresentações, performances de danças e DJ.

PROGRAMAÇÃO:

ABERTURA – Bruna Lopes, graduanda em Letras – Português, e Tomás Lahorgue, graduando em Letras – Línguas Adicionais, ambos estudantes da UNIPAMPA.

MESA DA DIVERSIDADE – Contra a transfobia, lesbofobia e homofobia.

Mediador – Régis Britto, psicólogo formado pela URCAMP.

Verônica Calvette – Ativista transsexual.

Priscila Rodrigues – Graduanda em Ciências Biológicas na URCAMP.

Carlos Eduardo Garibaldi Mansur – Bacharel em Comunicação Social, Pós-Graduado em Psicopedagogia, com Mestrado em Educação, Comunicação e Formação de Professores.

Francine Avilla e Luciana Paiva – OAB – Comissão de Diversidade Sexual de Bagé.

RODA DE CONVERSA: Combate à homofobia.

DJS: Anderson Vaz e Pablo Antunes!

PERFORMANCES:

Show com a transexual Alanis Nicole Fox interpretando Lohana em tributo às divas do POP!

Participação especial com performance das Drag Queens: Melanie Silveira por Max Vaz e Fenty por WésS

Encerramento – Carla Cloque

Com apoio da Prefeitura Municipal de Bagé e OAB – Comissão da Diversidade Sexual

Cobertura fotográfica: Bless Fotografia

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(Primeira Parada LGBTQIA+. Apresentador: Tomás Lahorgue. Foto: Bless Fotografia)

O evento reuniu mais de MIL PESSOAS em uma tarde e noite de discussões, conversas, relatos e performances. Nós, idealizadores/as, do evento jamais esperaríamos tamanho sucesso, mas o fato é que a cidade de Bagé ansiava por essa (re)existência, pela construção de um movimento que dissesse NÃO À HOMOFOBIA, LESBOFOBIA e TRANSFOBIA; não à violência em razão da orientação sexual e identidade de gênero na região da fronteira.

E, para revisitarmos a primeira Parada da Diversidade de Bagé, conversei com alguns/as organizadores/as e participantes do evento. Para início de conversa, perguntei o que o evento representou para eles/as, qual era a expectativa de público e como foi a recepção do evento na cidade. Apresento, a seguir, seus relatos:

Relato da Carla Cloque, organizadora de festas LGBTQIA+ na cidade de Bagé no período de 2003 a 2017 – “Quando recebi o convite de organizar o evento, confesso que fiquei bem assustada, porque já lidava com eventos, mas eram diferentes, as festas que eu organizava na época nunca foram divulgação aberta.  Era um desafio grande porque não tínhamos dinheiro nem patrocinador, tudo o que conseguimos foi doação e ajuda de quem tinha boa vontade. Foi uma surpresa grande e boa ver tanta gente envolvida na organização. Mesmo sem termos conseguido investimento, acredito que o evento superou o esperado, o evento foi um espetáculo à parte. Muito legal ver as pessoas chegando com suas famílias, com crianças, com avós, mães, pais, pessoas que estavam ali para dar apoio ao movimento e fazer com que o preconceito fosse de alguma forma quebrado. Fiquei satisfeitíssima com o resultado, queria muito ser convidada para participar de outra, pois tenho certeza que aquela parada fez a diferença, dando visibilidade ao nosso movimento”.

Relato de Pietra Simon Andrades, trans/surda, graduanda em Letras pela UNIPAMPA e Coordenadora Municipal na Aliança Nacional LGBTI – “Idealizei o primeiro evento de parada LGBT, só que, antes de criá-lo, eu e [outros] adolescentes pensamos em organizar uma junção somente para a comunidade LGBT, o problema é que alguns desistiram de colaborar. Fui até a Carla Cloque porque ela sabia como organizar festas, convidamos outros colaboradores e foi assim que trabalhamos juntes e organizamos juntes. Divulgamos muito nas redes sociais, ainda com receio de não dar certo, mas deu certo do jeito que sempre imaginávamos. Eu senti aquilo, é algo muito emocionante de se ver, todo mundo unido, junto com as famílias, crush, crianças e cachorros. Me deixou muito emocionada e nunca imaginei que nosso primeiro evento fosse ser um sucesso. Foi muito lindo ver todes se expressarem através deste movimento, eu acho que foi muito necessário fazermos aquele evento assim porque a sociedade precisa entender que a gente só quer respeito, se incluir e ser amada do jeito que somos. A Carla foi uma inspiração pra nós e sabia que ela seria a certa pessoa a trabalhar conosco, e claro que vocês também foram maravilhosos. Às vezes, dá uma saudade daquele primeiro evento, acredito que ninguém esquece desse dia marcante, né?”.

Relato da Bruna Lopes, professora de Português e Literatura, graduada pela UNIPAMPAA minha participação foi pequena, apenas na apresentação do evento, mas muito significativa para mim. Foi com grande alegria que recebi e aceitei o convite. Por ser a primeira parada na cidade, extremamente conservadora, não sabia muito bem como o evento seria recebido pela população. Fui surpreendida positivamente com a participação de muitas pessoas e com todo aquele afeto e sentimento de pertencimento encontrado nos olhos de todos nós. Para mim, que há relativamente pouco tempo havia compreendido a minha sexualidade, foi um momento de extrema liberdade. Este foi um dos primeiros momentos em que pude sentir que a minha existência era plena, que poderia ser quem sou sem julgamentos. A primeira parada LGBTQIA+ foi um grande marco para nossa cidade pelo pioneirismo e pela coragem de buscar espaço para discussões e para a visibilidade de existências que são tão deslegitimadas e oprimidas.”

Conversa via Google Meet com Max Vaz, dançarino e performer, que se apresentou na Parada LGBTQIA+ com sua Drag Queen Melanie Silveira:

Taiza – Como você se sentiu participando da primeira Parada LGBTQIA+ de Bagé?

Max Vaz – Para mim foi muito gratificante porque em uma cidade do interior, que tem pouca visibilidade, ter participado pra mim foi um escândalo, um baque porque não tem, a gente não vê Drag, a gente não vê essa cultura e na Parada foi grandioso! Para mim foi gratificante poder mostrar o meu trabalho, mostrar um talento, uma parte minha que descobri em 2013, em que descobri ter esse dom e saber fazer o que eu faço. O evento abriu as portas pra mim, eu achei que era uma coisa muito de Estados Unidos ou do Brasil em São Paulo e Rio de Janeiro, um tipo de coisa que não viria para cá. E foi fantástico poder mostrar esse meu talento na arte da dança. 

Taiza – Como foi a recepção do público durante sua performance?

Max Vaz – Eu não tinha ido para fazer um show, eu tinha ido para prestigiar o evento. Pensei, se é para causar, vou montada, e fomos eu e a Fenty que é o WesS. Nós fomos para dar close e então recebemos o convite para performar e aceitamos. Como a gente trabalhava no mesmo grupo de dança, já sabíamos algumas coreografias. Na hora eu fui bem carão, fui lá e fiz, sou bem abusado e então fui lá e fiz!! Mostrei o meu trabalho e fiz o que eu sei fazer que é dançar. O público agiu de forma bem positiva e é muito bom saber que tem pessoas em Bagé organizadas para fazer esse tipo de evento acontecer. E eu sou muito grato por ter participado, a gente, por ser assim, é sempre criminalizado e eu por ser negro, gay, pobre, drag queen e bailarino que é uma coisa que infelizmente as pessoas não levam a sério. Infelizmente. E foi meu momento, momento da Drag, é um momento que todo ano tinha que ter.

Taiza – E como foi pra ti ser aplaudido por mil pessoas naquele evento? Como se sentiu durante o evento?

Max Vaz – Olha, eu tô acostumado a dançar em festivais, em eventos e competir, mas é outra realidade, é outra coisa, outro sentimento que eu tive com as pessoas aplaudindo de pé, querendo me abraçar e querer contato, coisas que a dança não proporciona, que tu sai do palco, tu dançou e vai embora. E ser o centro das atenções assim, as pessoas querendo entrevistas para saber quem tu é e de onde tu veio, esse tipo de coisa faz muita falta. E eu sou muito grato por isso, por esse calor e por esse acolhimento. Que tenha sempre mais edições, Bagé precisa disso!

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(Foto: Bless Fotografia)

Após tais relatos é possível perceber a importância de diálogos que combatam violências, preconceitos e estereótipos negativos atribuídos a comunidade LGBTQIA+. Nos anos seguintes, 2017, 2018 e 2019, ocorreram mais três edições do evento, reunindo organizadores diversos, com pautas extremamente urgentes e necessárias. Tendo em vista que, nos anos que seguiram 2016, propostas como a “Cura Gay”, atribuindo patologias a sujeitos não heteronormativos, avançavam para votação e a violência contra pessoas LGBTQIA+ continuava sendo uma realidade massacrante no Brasil. Recentemente, em abril de 2021, avançou para a Assembléia Legislativa de São Paulo um Projeto de Lei que proíbe a propaganda com pessoas LGBTQIA+ a pretexto de que essa representação seria uma “prática danosa ou influência inadequada”. 

Infelizmente, ainda são urgentes discussões que combatam toda forma de preconceito. E, relembrar mobilizações, como a primeira Parada LGBTQIA+ de Bagé, e seus impactos na vida dos sujeitos envolvidos, é construir o tecido da memória, refletir sobre redes de afeto para construir seus sentidos.

Fica o desejo de que, em um futuro próximo, possamos nos reunir novamente, de corpo presente, assim que a Covid-19 passar. Mas, enquanto esse momento não chega, que continuemos a combater toda e qualquer forma de violência em razão da orientação sexual ou identidade de gênero.

Texto em memória de Alanis Nicole Fox

Organização da primeira Parada LGBTQIA+ de Bagé, 24 de julho de 2016: Bruna Lopes, Bruno Medeiros, Carla Cloque, Maria Marchiniak, Mariana Brasil Vidal, Rique Barcellos, Pietra Simon Andrades, Taiza Fonseca  e Tomás Lahorgue

Evento no facebook: https://www.facebook.com/events/1555921238044961?active_tab=about

Referência citada no início do texto: 

COURTINE, J. O tecido da memória: algumas perspectivas de trabalho histórico nas ciências da linguagem. Polifonia, Cuiabá, edufmt v. 12 n. 2 p. 1-13, 2006.

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Taiza da Hora Fonseca é acadêmica do curso de Letras Português e Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Pampa/Campus Bagé-RS. Fez parte do Diretório Acadêmico de Letras no período de 2015 a 2017 e participou como bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) no período de 2016 a 2018. Atualmente faz parte do PET – Programa de Educação Tutorial e seus interesses são: Temas Transversais, Política e Movimentos Sociais, Literatura, Poesia e Arte.

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“Esta é a coluna do PET-Letras, Programa de Educação Tutorial do curso de Letras – Português e Literaturas de Língua Portuguesa, do campus Bagé. O programa, financiado pelo FNDE/MEC, visa fornecer aos seus bolsistas uma formação ampla que contemple não apenas uma formação acadêmica qualificada como também uma formação cidadã no sentido de formar sujeitos responsáveis por seu papel social na transformação da realidade nacional. Com essa filosofia é que o PET desenvolve projetos e ações nos eixos de pesquisa, ensino e extensão. Nessa coluna, você lerá textos produzidos pelos petianos que registram suas reflexões acerca de temas gerados e debatidos a partir das ações desenvolvidas pelo grupo. Esperamos que apreciem nossa coluna. Boa leitura”.

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